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SÉRGIO BERNARDES

"Se não me examinarem, estou ótimo", responde, sempre muito bem-humorado, o arquiteto carioca Sérgio Bernardes a qualquer um que pergunte como vai levando a vida. Saudosista, orgulha-se em contar suas numerosas aventuras, e não é para menos. Aos 16 anos, cursou pilotagem no aeroclube de Manguinhos (RJ) porque queria fazer acrobacias. E fez muitas pelo céu do Brasil, com seu próprio monomotor. Comprado nos anos 50 para auxiliá-lo nas viagens de trabalho, o arquiteto uniu o útil ao agradável, ensaiando arriscadas pilotagens a caminho do dever. Aos 17 anos, participava de corridas pelas avenidas do Rio. Certo dia, correndo no circuito da Gávea (RJ), capotou na avenida Niemeyer, na altura da Gruta da Imprensa, caindo ele e um amigo ao mar. Apesar de seus 80 anos, Sérgio Bernardes encontra disposição para trabalhar por mais de 12 horas diárias, criando e armazenando idéias num acervo que já soma mais seis mil projetos, acumulados durante 65 anos de trabalho. "Na verdade, sou um vagabundo e só não mato alguém por preguiça de esconder o corpo", define-se. Nascido a 9 de abril de 1919, construiu várias obras de importância histórica espalhadas pelo País. Embora sem colocação política definida, sempre fez projetos para os militares. Até que o presidente Geisel descobriu que Bernardes estava a serviço de oficiais suspeitos de simpatizarem com a esquerda. Nervoso, cancelou um de seus mais importantes projetos, o Comando Naval de Brasília, que estava em andamento em 1972. Bernardes ficou quase 20 anos sem trabalho, em razão da ditadura militar. Foi quando partiu para os projetos residenciais, aos quais se dedica até hoje.
VOCÊ SABIA? Vencedor da Bienal de Veneza em 1964, trocou o prêmio em dinheiro por uma Ferrari. Não dispensava o carro nas viagens ao Exterior. Fazia questão de pilotá-lo em autódromos.
OBRA DE ARTE:
· Mausoléu de Castello Branco (1968) - Fortaleza-CE
· Palácio do Governo (1969) - Fortaleza-CE
· Hotel Tambaú (1966) - João Pessoa-PB
· Pavilhão das Bandeiras na Praça dos Três Poderes (1969) - Brasília-DF


BRUNO GIORGI

Na década de 40, um milionário paulistano encomendou a Bruno Giorgi dois pinguins esculpidos no gelo para guardar gordas porções de caviar durante um banquete. A encomenda foi entregue, mas não durou até o final da festa. Em pouco tempo, o caviar estava esparramado pela mesa e o anfitrião xingava o artista com toda a força de seus pulmões. No dia seguinte, o homem mandou avisar Bruno que não pagaria um tostão pelo trabalho e que a conta do caviar desperdiçado estava chegando para ele pagar. Esta era uma das poucas histórias que o escultor Bruno Giorgi contava. "Ficava dias inteiros na sala de estar sem conversar, lendo e fitando o vazio", contou Jones Bergamin, um dos raros amigos do escultor. Vez por outra, o artista soltava algumas frases que pareciam resultado de horas de elaboração. "O creme não compensa" era uma delas, que dizia quando lhe ofereciam café com creme de leite, que ele detestava. Era ensimesmado, mas não caipira. Embora fosse nascido no interior de São Paulo (em Mococa) a 13 de agosto de 1905, era um cosmopolita. Aos seis anos, mudou-se com os pais (um casal de italianos) e os dois irmãos para Roma. No início dos anos 30, foi a Paris estudar as técnicas da escultura com Aristide Maillol e, de volta ao Brasil, em 1939, construiu uma das mais importantes trajetórias da arte brasileira. Em 40 anos de profissão, esculpiu centenas de dorsos femininos - seu tema preferido - e obras que se tornariam cartões-postais do País, como Os Candangos, monumento símbolo de Brasília. "Era anarquista em tudo o que pensava e anárquico em tudo o que fazia", disse Leontina, a esposa que viveu com Bruno durante 23 anos - o filho do casal nasceu quando o artista tinha 78 anos. A militância no Partido Comunista lhe valeu cinco anos de prisão na Itália, de 1931 a 1935. "Levou as idéias libertárias até para o trabalho. Não tinha a menor organização e nem se preocupava em guardar ou rever obras. Quando não gostava, simplesmente as desmanchava", lembra Leontina. Num canto do ateliê, ele se encolhia e passava horas lambuzando as mãos de barro e lapidando o mármore. O pó do mármore causou danos aos brônquios, já que ele nunca usou uma máscara de proteção. Debilitado, morreu aos 88 anos, de parada cardíaca no Rio de Janeiro.
VOCÊ SABIA? Meteoro, esfera em mármore de 50 toneladas, foi trazida da Itália para Brasília. Um guindaste não suportou o peso e a escultura parou a 20 cm da cabeça de Giorgi. O susto foi tanto que o artista ficou de cama com febre uma semana.
OBRA DE ARTE:
· Monumento à juventude (1946) - Palácio da Cultura - RJ
· Candangos (1960) - Praça dos Três Poderes - Brasília
· Meteoro (1968) - Ministério das Relações Exteriores - Brasília
· Condor (1978) - Praça da Sé -SP

BURLE MARX

A sorte de Roberto Burle Marx foi morar no Leme, na zona sul carioca, no início dos anos 30, em frente à casa do arquiteto Lúcio Costa. Burle Marx era um jovem de 23 anos que passava boa parte do tempo cuidando de um jardim que atraía a atenção dos vizinhos. Costa era apenas um dos que perdiam minutos diários admirando as plantas cultivadas com um esmero incansável. Numa manhã de 1932, tocou a campainha e propôs que Burle Marx elaborasse o projeto paisagístico de uma casa projetada por ele para a família Schwartz, em Copacabana. O jovem aceitou no ato. Naquele tempo, não imaginava que, 60 anos depois, teria em seu currículo cerca de dois mil projetos no mundo inteiro. Muitos foram feitos para mansões particulares, mas o artista preferia se dedicar aos parques públicos. "Devolvem às pessoas o verde que a cidade lhes roubou." Reconhecido internacionalmente como paisagista, desagradava a crítica quando se arriscava na pintura. Entretanto, era de seu feitio não dar a menor trela para opiniões alheias. Ele pintava mesmo assim e muito bem, obrigado. Foi também designer, arquiteto, tapeceiro e pioneiro da ecologia no Brasil. Antes de pensar em ser tudo isso, sonhava com uma brilhante carreira de cantor lírico. A voz de tenor aprazia os amigos, para quem ele cantava árias de suas óperas preferidas. Carioca de espírito Paulistano, nascido a 4 de agosto de 1909, dizia-se um "carioca de espírito". Filho do alemão Guilherme Marx e da pernambucana Cecília Burle, mudou-se com a família para o Rio aos quatro anos e só abandonou a cidade para morar na Alemanha, dos 19 aos 22 anos. Ironicamente, foi lá, onde estudava música, que conheceu a flora brasileira, enquanto passeava pelo Jardim Botânico de Dahlen. "Não era um deslumbrado, daqueles que suspiram quando vêem um pôr-do-sol. Amava a natureza de um jeito simples e lutava com todas as suas forças contra o desmatamento", disse Robério Dias, ex-aluno que hoje dirige o Sítio Burle Marx, em Barra de Guaratiba, no Rio. No início dos anos 70, mudou-se em definitivo para o sítio comprado em 1949. "Só faço jardim para os outros e não tenho nenhum para mim", disse na época, com seu peculiar bom humor. Tinha o sonho de transformar a área num centro de referência para estudos de botânica. Em vida, cultivou 3,5 mil espécies de plantas no terreno de 365 mil metros quadrados. A paixão e a curiosidade pela natureza eram tão grandes que Burle Marx costumava organizar excursões semestrais pelos quatro cantos do País, empenhado em descobrir a flora brasileira. Fez verdadeiras missões par ao Pantanal, a Amazônia, o sertão nordestino, o Paraná e onde mais pudesse chegar com sua "frota" (um ônibus, três carros e um pequeno caminhão). A comitiva era formada por amigos, parentes, botânicos, estagiários, curiosos e quem mais quisesse ir. Mobilizava, além dos convidados, uma dezena de auxiliares para transportar as plantas para o Rio. "A turma chegava cansada. Ele era o primeiro a pular do ônibus, cheio de animação", lembra Robério. Tanta dedicação valeu a pena: catalogou 46 novas plantas. Em 1994, uma tentativa de sequestro o deixou profundamente deprimido e pode ter contribuído para abreviar a vida de Burle Marx. Homens armados invadiram o sítio, mas a operação dos bandidos foi frustrada pelos seguranças da casa. Três meses depois, médicos diagnosticaram um câncer no abdômen do paisagista. Morreu a 4 de julho, aos 84 anos, deixando tudo o que tinha de herança para os funcionários.
VOCÊ SABIA? Batendo papo com duas clientes, as madames falavam sobre os gostos musicais de suas plantas. "A minha roseira ama Beethoven", dizia uma. "A minha só ouve Mozart", achava a outra. Perguntaram: "E as suas, Roberto, gostam do quê?" Ouviram a resposta mal-educada: "As minhas? De cocô, estrume, conhecem?"
OBRA DE ARTE:
· Parque do Flamengo (1961) - RJ
· Jardim interno da sede da Unesco (1963), Paris.
· Jardim do Palácio do Itamaraty (1965) - Brasília.
· Canteiro central e calçadão da praia de Copacabana (1970) - RJ

LINA BO BARDI

O prédio do Museu de Arte de São Paulo, famoso pelo impressionante vão de 78 metros de comprimento, no topo da avenida Paulista, contrasta com os arranha-céus de estilo yuppie. Um palácio de concreto e vidro, com área de dez mil metros quadrados, apoiado em apenas quatro pilares de oito metros de altura, o edifício é uma gota de racionalidade em meio a um oceano de mau gosto. Bastaria que Lina Bo Bardi, italiana naturalizada brasileira, tivesse projetado o Masp para assegurar um lugar de honra entre os arquitetos do século. Mas ela fez muito mais. De sua prancheta nasceram, por exemplo, o centro de lazer Sesc Fábrica da Pompéia e a sede da prefeitura da capital paulista, no Parque Dom Pedro II, na zona leste da cidade. Quando analisava a própria obra, entretanto, rendia-se à modéstia. "Talvez a mais importante seja a capelinha miserável em Uberlândia, feita sem dinheiro, com os padres franciscanos e as prostitutas." Antifascista Lina nasceu a 5 de dezembro de 1914, em Roma. As lembranças de infância sempre lhe pareceram insuficientes para uma auto-biografia que não chegou a escrever. "O que eu queria era ter história. Com 25 anos, queria escrever memórias, mas não tinha matéria." Logo após formar-se em Arquitetura, na Faculdade de Roma, em 1940. Lina trabalhou no escritório do célebre arquiteto Gió Ponti, diretor das Trienais de Milão e da revista Domus. "Eu não vou pagar você, você é que tem de me pagar", avisou ele. E Lina trabalhou das oito da manhã à meia-noite, sábados e domingos inclusos, desenhando desde xícaras, cadeiras e roupas até projetos urbanísticos. Era diretora da revista de Ponti quando resolveu entrar para a Resistência antifascista. País inimaginável Esta militante que se definia como "stalinista, militarista e antifeminista" apaixonou-se pelo marchand Pietro Maria Bardi, que um dia apareceu na redação da Domus para lhe conceder uma entrevista. "Não queria casar, mas é chato se hospedar num hotel juntos sem se estar casado", justificou. No final de 1946, Pietro aceitou o convite de Assis Chateaubriand, empresário das comunicações no Brasil, para criar um museu em terras tropicais. "Para quem chegava ao Rio de Janeiro pelo mar, o edifício do Ministério da Educação (obra de Lúcio Costa) avançava como um grande navio branco e azul contra o céu. Me senti num país inimaginável, onde tudo era possível." O museu deveria ser erguido em São Paulo, "onde estava o dinheiro", embora Lina considerasse a capital paulista "confusa, sem lugar para passear". Em 1951, o casal naturalizou-se, finalmente. Chateaubriand conseguiu o dinheiro para o projeto do Masp, inaugurado em 1968. Lina não se limitou, no entanto, a produzir obras na capital paulista. No final dos anos 50, por exemplo, o governador da Bahia, Juracy Magalhães, convidou Lina para fundar o Museu de Arte Moderna em Salvador. O edifício pegou fogo no dia da inauguração. Ela não esmoreceu e, 30 anos depois, dedicou-se à restauração do centro histórico de Salvador. A falta de verba impediu que ela completasse o trabalho. Entre as obras que conseguiu concluir, estão a Ladeira da Misericórdia, a Casa do Olodum e a Fundação Pierre Verger. Lina e Pietro viviam na Casa de Vidro, um projeto inusitado de Lina, construído em 1950 no bairro do Morumbi, em São Paulo, cercado por oito mil metros quadrados de Mata Atlântica. "Quando nos mudamos, havia até bicho-preguiça lá." Lina morreu a 20 de março de 1992, de embolia pulmonar, aos 77 anos, e suas cinzas foram depositadas numa das paredes da Casa de Vidro. "Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha 'pátria de escolha', e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e às da fronteira", escreveu Lina. VOCÊ SABIA? Lina era também grande arquiteta na cozinha, embora não soubesse picar um tomate sequer. Depois que os outros preparavam os alimentos, ela acomodava a comida nos pratos segundo padrões estéticos e arquitetônicos rigorosos.
OBRA DE ARTE:
· Museu de Arte de São Paulo (Masp) (1968)
· Sesc Fábrica da Pompéia (1977) · Centro Histórico da Bahia (1986)
· Palácio das Indústrias - Prefeitura de São Paulo (1992)

LÚCIO COSTA


Convidado a erguer o prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, em 1936, o arquiteto Lúcio Costa exigiu que o suíço naturalizado francês Le Corbusier, o papa da arquitetura moderna, fosse o consultor do projeto. A muito custo, convenceu o ministro Gustavo Capanema a levá-lo até Getúlio Vargas. "O ministro está plenamente satisfeito com o seu desenho. Por que chamar o estrangeiro?", estranhou o presidente. Lúcio pigarreou e começou a discursar com tal entusiasmo em favor de Le Corbusier que logo sentiu Capanema a puxar-lhe a aba do paletó, pedindo que moderasse o tom. "Está bem, chamem o homem", cedeu Getúlio. As colunas que sustentam o edifício, inaugurado em 1945 e conhecido hoje como Palácio da Cultura, permitem que o andar térreo seja um jardim de livre trânsito. Os transeuntes que cruzam o quarteirão, apressados, não sabem a importância histórica do prédio. Construído num país pobre, durante a Segunda Guerra Mundial, é o primeiro de grande porte no mundo concebido segundo a doutrina modernista (para isso, colaborou o fato de a Europa estar se estraçalhando a cada bombardeio). Saindo pela tangente Nascido a 27 de fevereiro de 1902, em Toulon, na França (o pai era engenheiro naval e ajudou a construir a esquadra brasileira no velho continente), Lúcio passou boa parte da infância na Inglaterra e na Suíça. A família voltou ao Brasil em 1916, num navio às escuras para escapar dos submarinos alemães em plena Primeira Guerra Mundial. Lúcio formou-se arquiteto na Escola Nacional de Belas Artes, em 1922. Quatro anos depois, ganhou na loteria e se deu ao luxo de vagabundear durante um ano na Europa. Havia outro motivo para sair pela tangente: estava enrascado em "problemas sentimentais insolúveis". Tinha duas namoradas, ambas chamadas Julieta, e o que é pior, primas. Lieta o convidara a espiar uma obra na casa do tio e lá ele deparou com Leleta, atirada ao chão, fazendo faxina, "com uma florzinha de manacá nos cabelos." O coração partiu. Nem bem engrenara a carreira de arquiteto, os ventos da Revolução de 1930 o conduziram à direção da Enba. Com 28 anos, encarregado de reformular o ensino das Belas Artes, considerou a tarefa fracassada "porque resultou no desmantelo do que, bem ou mal, havia sem ter deixado nada em troca." O ponto alto de sua gestão foi o Salão Revolucionário de 1931, quando, pela primeira vez, os modernistas da Semana de 1922 participaram de um evento patrocinado pelo governo. Lúcio quis voltar à carreira de arquiteto, mas estava em crise. Era paparicado por uma clientela ávida de casas de estilo neocolonial, "uma miscelânia de mau gosto". Casado (decidiu-se por Lieta, a da florzinha de manacá nos cabelos, com quem teve duas filhas) e morando com o sogro, Lúcio vivia um período de vacas magras. Aproveitou a escassez de serviço para estudar a fundo a obra de Le Corbusier. Uma cliente da alta sociedade reclamou: "Eu pedi uma carruagem e o senhor quer me impingir um automóvel." Em boa companhia Construir o Ministério da Educação foi fundamental para que ele recuperasse o prestígio. Em 1937, entrou no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), sentando numa mesa ao lado do poeta Carlos Drummond de Andrade (será que, na época, como hoje, era moda criticar a qualidade dos quadros do funcionalismo?). Era um brasileiro consciente da cidadania. Para Lúcio, a cidade era extensão de sua casa. Nos anos 40, matutou durante semanas espontaneamente uma saída para o nó do trânsito no Rio. Deixou a sugestão na portaria do prédio do responsável pelo tráfego na época, sem avisá-lo. Continuou fazendo sucesso como arquiteto, mas a idéia de planejar uma nova cidade o atraiu em 1957. Inscreveu-se no concurso do plano piloto de Brasília na última hora. Já estavam fechando o guichê quando as filhas entregaram a proposta. Ele ficara esperando no carro. Faria ainda o projeto de ocupação da Barra da Tijuca, no Rio, que a especulação imobiliária desvirtuou. Morreu a 13 de junho de 1998, aos 96 anos. Havia deixado um bilhete: "Não me internem. Lugar de morrer é em casa." "Sofria com o glaucoma que não lhe permitia mais olhar a paisagem. Foi enfraquecendo até que, certa manhã, sentou-se para tomar café. Bebeu três colheres e se apagou, de mansinho", disse a filha Maria Elisa.
VOCÊ SABIA? Num sábado, depois do meio-dia, a família arrumou as malas e tomou a direção do distrito de Correias, na serra fluminense, onde costumava descansar nos fins de semana. Uma tarde de mormaço, que logo virou chuva de final de verão. De repente, o carro deslizou e foi de encontro a uma árvore. Julieta, mulher de Lúcio, foi apunhalada pela alavanca de mudança, que era presa ao volante do automóvel. Teve morte instantânea. O desastre foi em março de 1954 e Lúcio se culpou o resto da vida, acreditando ter cochilado alguns segundos na direção, embora haja indícios de que os pneus tenham perdido a aderência à pista molhada. As filhas tentaram em vão convencê-lo de que havia sido uma fatalidade. "Foi um cochilo meu, idiota. Que maldade do destino!", lamentava-se. OBRA DE ARTE:
· Ministério da Educação, hoje Palácio da Cultura (1936) - RJ
· Parque Guinle (1940) - RJ
· Plano-piloto de Brasília (1957)
· Projeto de ocupação da Barra da Tijuca (1969) - RJ

JOSÉ PANCETTI

Era um marinheiro que pintava ou um pintor que gostava de navegar? Filho de imigrantes italianos, Giuseppe Giannini Pancetti (teve o nome abrasileirado logo depois de nascer, a 18 de junho de 1904, em Campinas, no interior paulista) nunca soube responder ao certo. O pai chegou a São Paulo em 1891 para trabalhar como mestre-de-obras na construção do Teatro Municipal. Aos oito anos de idade, o menino viajou para a Itália com um tio e arrumou um biscate de carpinteiro num serviço especializado - fazia caixões de defunto. Não era o futuro que desejava e, logo que o moleque virou rapaz, entrou para a Marinha Mercante italiana, jogando-se no mundo. Em 1920, voltou ao Brasil para ganhar a vida como pintor de paredes. Nessa época, dormiu em bancos de praças até conseguir uma vaga na Marinha brasileira. A primeira embarcação nacional que tripulou foi o destróier Paraná. Passou a pintar as marinhas e os companheiros de farda, quando não era encarregado de passar tinta no próprio navio. Especializou-se no casco. Os comandantes o requisitavam para pintar os camarotes e Pancetti gozava de consideração especial junto aos superiores. Ainda era marinheiro quando estudou artes plásticas no Rio de Janeiro. Em 1933, o marujo semi-analfabeto foi aceito no Salão de Belas Artes, na antiga capital, onde ganhou prêmios e reconhecimento do meio artístico. No início dos anos 40, Pancetti descobriu que estava tuberculoso e escolheu Campos do Jordão (SP) para se tratar. Ao menor sinal de melhora, buscava seu velho companheiro, o mar, para pintar horizontes e rebentações. Morreu a 10 de fevereiro de 1958, de câncer pulmonar.
VOCÊ SABIA? Não tinha sorte no amor. Stela era a grande musa. Entretanto, ela o abandonou e, para aliviar a saudade, guardou as roupas íntimas da amada durante anos. Numa bebedeira, quando morava no Leme, na zona sul do Rio, enfureceu-se e jogou todos os trapos velhos pela janela.
OBRA DE ARTE:
· Campos do Jordão (1943), coleção particular.
· Natureza morta com frutas e garrafas (1943), coleção particular
· Marinha (1945), Museu Nacional de Belas Artes - RJ
· Lavadeira do Abaeté (1957), coleção particular

Candido Portinari


Pai, não quero mais ninguém se sacrificando aí em casa. Pode vender a fabriqueta de cadeiras porque, de agora em diante, vou mandar dinheiro todo mês, entendeu bem?" Seu Batista entendeu, afinal, o que "Candinho" falava era lei. Junto com dona Dominga, o velho passaria o resto da vida descansando e fumando seu cigarro de palha. Depois de tanta labuta na colheita de café, e mais tarde na fábrica, nada mais justo que os dois vivessem com tranquilidade. "Candinho era generoso e não gostava de ver ninguém sofrer", contou a irmã caçula Ínes, que morou com o pintor durante 20 anos. A infância pobre em Brodowsqui, no interior paulista (340 quilômetros ao norte da capital), fez de Candido Portinari um artista preocupado em reproduzir as agruras do homem brasileiro. Em mais de cinco mil obras, entre afrescos, óleos e desenhos, ele retratou a vida bucólica do interior, a miséria dos retirantes nordestinos e o folclore das festas populares, além dos santos preferidos da população. A arte sacra é um capítulo à parte na trajetória de "Candinho". Apesar de comunista de carteirinha - esta, aliás, lhe foi dada por Luís Carlos Prestes -, não era ateu. Guardou para sempre a herança católica da avó Pellegrina, que passava as noites contando terríveis histórias sobre o inferno para a prole de dona Dominga - 12 crianças que não dormiam de tanto medo. A casa onde morou, transformada em museu em 1970, abriga no quintal La Capella de la Nonna, que mandou construir para dona Pellegrina. Nas paredes do oratório, pintou em afrescos alguns santos usando os parentes como modelos. Viva a professora! O talento era nato. Aos nove anos, copiou de uma estampa de maço de cigarro a figura do maestro Carlos Gomes no caderno da escola. "Tem que mandar esse menino para o Rio de Janeiro estudar pintura!", concluiu a professora. De fato, fez as malas assim que completou 15 anos (nasceu a 3 de agosto de 1903). "No começo, a vida não foi fácil no Rio, mas ele se entregou à arte, como faria até a morte", disse o único filho, João Candido. Cursou a Escola Nacional de Belas Artes na antiga capital do País, embora desprezasse a arte acadêmica. Quem o conheceu não sabe explicar de onde vinha tanto charme. Era um sujeito tão baixo - 1,54m - que precisava de escada para pintar até as menores telas. Quando nasceu, mirrado, assustou os parentes- "Se eu soubesse que não tinha nada para ver nem teria vindo", brincou uma tia que foi conhecer a criança. Míope, usava óculos de fundo-de-garrafa. Era calvo e tinha uma perna mais curta que a outra. Embora elegante e bem-humorado, guardava certo ranço. "Um amigo do Manuel Bandeira me passou uma cantada e ele só faltou voar no pescoço dele. Não me deixava sair de casa por ser moça da roça", lembra a irmã Ínes. Dormia até tarde e roncava tão alto que era motivo de piadas na vizinhança. Só tomava o café da manhã se a esposa, Maria, com quem viveu 30 anos, levasse na cama. Depois de ler todos os jornais de cabo a rabo, incluindo os anúncios, ia trabalhar no ateliê. Metódico, abandonava a pintura só na hora das refeições ou para receber amigos. Se o sujeito chegasse ao anoitecer, só saía no dia seguinte. As noitadas eram regadas a macarronada e vinho, que o anfitrião não podia beber devido a males digestivos crônicos. "Era psicológico, hoje a gente sabe. Bastava sair do País para que ele comesse e bebesse de tudo sem passar mal", lembra a irmã, que preparava torradas puras, sem manteiga. A tristeza com a separação de Maria, em 1960, só fez piorar os distúrbios gástricos. Em fevereiro de 1962, intoxicado por produtos químicos das tintas que usava para trabalhar, foi intenado numa clínica carioca e morreu alguns dias depois. Entre seus pertences, foi achado um poema em que ele expunha sua curiosidade: "A morte será colorida? Qual a cor do outro lado?"
VOCÊ SABIA? Quando estava trabalhando, ficava tão concentrado que não deixava cair uma gota de tinta sequer no chão do ateliê. Se tinha compromisso à noite, vestia a roupa chique logo pela manhã só para não ter trabalho depois. Era comum encontrá-lo de smoking e pincel na mão.
OBRA DE ARTE:
· O café (1935), Museu Nacional de Belas Artes - RJ
· Os retirantes (1944), Masp - SP
· Tiradentes (1949), Memorial da América Latina - SP
· A paz (1956), sede da ONU, Nova York.

VICTOR BRECHERET

Em 1907, alguém deixou cair uma revista francesa na calçada da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, sem saber que fazia um favor para a arte brasileira. O fato é que um adolescente de 13 anos que passava por ali, fazedo seu percurso diário da casa para a escola, apanhou a publicação. Não entendia nada de francês, mas ficou fascinado pelas reproduções de algumas obras do escultor Rodin. Era Victor Brecheret, (nascido em São Paulo a 22 de fevereiro de 1894), que resolveu matricular-se no Liceu de Artes e Ofícios naquele mesmo dia. Quando concluiu o curso, em 1912, foi encontrar-se com a mãe na Itália. Depois da morte do marido, em 1896, ela voltou para a terra natal, deixando o filho no Brasil aos cuidados dos tios. Em Roma, Victor foi o discípulo mais aplicado do escultor Dazzi, até a morte do ídolo Rodin. Em 1917, foi a Paris só para acompanhar os funerais do escultor, e acabou se apaixonando pela atmosfera cultural da cidade. Ficou por lá até o início dos anos 30, quando a saudade apertou e ele voltou ao Brasil. Nessa altura, era o escultor mais importante do modernismo brasileiro. Tinha participado da Semana de 1922, enviando algumas obras diretamente de Paris. Sem palavras Era homem de poucas palavras. "Sempre calado, só se comunicava através de seu trabalho", disse Victor Brecheret Filho. Em 1936, iniciou sua principal obra - que levou 33 anos para ficar pronta -, o Monumento às Bandeiras, hoje um velho conhecido dos paulistanos que passam diariamente em frente ao Parque do Ibirapuera. Em 40 anos de produção intensiva, espalhou 18 esculturas pela capital paulista e dezenas de outras em museus do Brasil e do Exterior. "A arte era um sacerdócio para ele. Mesmo nos finais de semana, projetava esculturas pelos cantos da casa", lembra o filho. A esposa, Juranda, com quem viveu 19 anos, avisou: "Trabalhando desse jeito, vai morrer cedo." Sem desviar os olhos da escultura que fazia, respondeu: "Um artista não precisa viver muito, basta que fiquem suas obras." Morreu de parada cardíaca, em dezembro de 1955. "Brecheret foi a escultura de São Paulo", resumiu Oswald de Andrade.
VOCÊ SABIA? Convidava o amigo Lasar Segall para jantar e dizia: "Vamos, Lasar, você banca hoje que, numa próxima oportunidade, será a minha vez." Depois de comerem, convidava o amigo para um cafezinho. Aí Victor fazia questão de pagar e dizia: "Ótimo, agora estamos quites. O próximo jantar é por sua conta."
OBRA DE ARTE:
· Monumento às Bandeiras, Parque do Ibirapuera-SP (1936 a 1953)
· Duque de Caxias, Praça Princesa Isabel - SP (1941)
· Fauno, Parque Trianon-SP (1942)

ALFREDO VOLPI


Homem robusto e de riso largo, o pintor Alfredo Volpi era de uma simplicidade comovente. Nunca soube lidar com o dinheiro. Preocupava-se com a miséria alheia a ponto de parar o carro, desembarcar e dar esmolas aos mendigos do Cambuci, bairro da região central de São Paulo, onde ele morou quase 90 anos. Tirava aleatoriamente uma nota do bolso e a entregava ao sujeito. Às vezes, o valor era tão alto que os amigos se espantavam. "E o que ele vai fazer com um trocadinho?", retrucava Volpi. Filho de comerciantes humildes, nasceu em Lucca, na Itália, a 14 de abril de 1896. Chegou ao Brasil com dois anos de idade. Os pais o matricularam numa escola particular, mas Volpi abandonou os estudos sem completar o primário. Aos 12 anos, empregou-se na tipografia onde já trabalhavam dois irmãos (eram cinco ao todo; apenas o caçula João, 90 anos, está vivo). Com o salário comprou uma caixa de aquarela por 500 réis. Passava horas manuseando as tintas, misturando as cores só pela curiosidade de ver o resultado. Virou decorador, pintando ornamentos m muros, tetos e paredes dos casarões da avenida Paulista. Quando sobrava tempo, frequentava o velho edifício Santa Helena, na Praça da Sé, para reunir-se com o grupo de jovens pintores formado por Penacchi, Rebolo e Aldo Bonadei. Era um ilustre desconhecido até realizar a primeira exposição individual, aos 48 anos. Ganhou fama com o prêmio conquistado na Bienal de São Paulo, em 1953. Nessa época, já vivia com a esposa, Judite, uma mulata com quem teve uma filha, Eugênia Maria. A casa do Cambuci estava de portas abertas para as crianças. Judite gostava de adotá-las e Volpi não se incomodava. Foram mais de 20. A maioria ia apenas para comer e brincar; outras eram criadas pelo casal. Hoje, poucas carregam o sobrenome italiano - uma delas é Djanira Volpi, jogadora de búzios e tarô que vive à beira da miséria. "As disputas entre a família me empobreceram", afirmou Djanira. Festa Junina Em 1954, Judite foi descansar no sítio da família em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Numa madrugada de junho, Volpi chegava à cidade quando se encantou com o colorido das bandeirinhas de São João da praça central. "Viu, se fascinou, pintou e deu certo", relatou o artista plástico Hermelindo Fiaminghi, amigo de Volpi desde a década de 50. A imagem ficou na memória coletiva como um exemplo típico do traço de Volpi, sua marca pessoal e intransferível, mas ele na intimidade manifestava uma pontinha de irritação quando perguntavam o significado de tais bandeirolas. "Não pinto bandeirinhas, hostia", dizia com seu irremediável sotaque toscano. Onde as pessoas enxergavam apenas bandeiras existiam retângulos, quadrados e triângulo de uma composição geométrica ritmada e festiva, pura inspiração de Volpi. O belo resultado no que diz respeito às cores pode ser creditado, em parte, à mistura inusitada de clara e gema de ovo às tintas. Inventivo e magnífico. Volpi não se naturalizou, mas seu coração era brasileiro. Visitou o país de origem uma única vez, em 1950. Na volta, levou bronca dos parentes. Afinal, se esquecera de trazer as famosas gravatas italianas. Ora, e para quê? Nunca usou gravatas. A cada início de manhã vestia sua calça comprida e os tamancos para caminhar. Às sete horas já estava pintando - na maioria das vezes descalço, sem camisa, fumando seus habituais cigarros de palha que ele própio enrolava. Terminava o expediente ao pôr-do-sol, pois se recusava a trabalhar sob luz artificial. Depois, se estirava no sofá para assistir à televisão - adorava novelas e não perdia um capítulo de Gabriela - enquanto esperava o jantar: sopa de alho com azeite e muita pimenta-do-reino. Aos domingos, recebia os amigos para a tradicional macarronada. Segredo da felicidade Bom de garfo e de copo, Volpi tomava uma taça de vinho no almoço e outra no jantar. "Não se engole vinho como água", alertava aos maus conhecedores da bebida. Entusiasmado pela arte, pintava por prazer. Sempre recusava encomendas. Seu segredo era a felicidade no sentido mais singelo. "Os que trabalham num emprego sem gostar, à espera da aposentadoria, morrem logo", costumava dizer. Volpi morreu aos 92 anos, sem fazer fortuna, a 28 de maio de 1988. A fragilidade do estado de saúde o impedia de pintar, mas ele não dispensava o vinho tinto italiano. Nem as esmolas generosas.
VOCÊ SABIA? Calado e introspectivo, nem de longe o pintor lembrava o típico italiano. Era um sacrifício arrancar algum comentário de Volpi. Por isso, o escultor Bruno Giorgi, igualmente silencioso, era uma das companhias preferidas. Foram amigos durante mais de 40 anos. Eles passavam a tarde jogando paciência. Às vezes, Volpi trapaceava a si mesmo no jogo. "É para dar alguma graça", dizia.
OBRA DE ARTE: · Marinha com pescadores (final dos anos 30) , MAM-SP
· Mogi das Cruzes (1939), Museu de Arte Contemporânea da USP
· Casas (1955), MAC-USP
· Mastros em xadrez (anos 70), acervo particular

ANITA MALFATTI

Quem desdenha quer comprar. Só um ditado popular poderia explicar a reação do escritor Mário de Andrade diante das obras da precursora do modernismo, Anita Malfatti. Em 1917, avisado sobre uma exposição "esquisita e cheia de coisas dantescas" na capital paulista, resolveu conferir a novidade. Logo ao entrar, deparou-se com retratos de figuras deformadas. Na composição dos quadros, a pintora usara cores fortes, lançando-as em pinceladas bruscas. As obras não assumiam nenhum compromisso em refletir a realidade, conforme pregava o conservadorismo impregnado nas artes brasileiras. Mário olhou para O homem amarelo, A mulher de cabelos verdes e A boba e não se conteve. Soltou escandalosas gargalhadas, pois não compreendia o que via, até que a responsável pelas ousadias surgiu enfurecida. "O que está tão engraçado aqui?", perguntou Anita Malfatti. A resposta só veio alguns anos depois. O escritor retornou várias vezes à mesma exposição e acabou virando um dos melhores amigos de Anita. Trocavam correspondências diárias e, na Semana de Arte Moderna de 1922, Mário adquiriu O homem amarelo, do qual debochara. "Só não comprei na exposição de 1917 porque faltou dinheiro", disfarçou ele. Atrofia congênita "Anita foi a primeira a abandonar os acadêmicos, a ter contato e aceitar as vanguardas. Ela foi influenciada por vários estilos, como o fauvismo e o cubismo e montou sua própria linguagem expressionista", afirma Marta Rossetti, diretora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Nascida em São Paulo, a 2 de dezembro de 1889, era filha de imigrantes. O pai, Samuel, natural de Lucca, na Itália, era engenheiro e trabalhou em estradas de ferro e na construção civil. A mãe, Eleonora, americana, falava vários idiomas, desenhava e pintava. Teve grande influência na formação artística de Anita. A menina sofria de uma atrofia congênita na mão direita. Aos três anos de idade, a mãe a levou para a Itália, à procura de tratamento para curá-la, mas foi em vão. Com grande força de vontade, Anita aprendeu a escrever, desenhar e pintar só com a mão esquerda. Aos 20 anos, morando em Berlim sozinha, contamina-se pela atmosfera expressionista que tomara conta da cidade. Durante um ano, frequenta a Academia Real de Belas Artes. Em 1913, volta para o Brasil e, dois anos depois, passa uma temporada nos Estados Unidos. Quando retorna, em 1916, está entusiasmada com o que aprendera no Exterior. A exposição do ano seguinte, que escandalizou Mário de Andrade, incluía 53 pinturas, exibidas em um salão alugado da rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo. Anita uniu o expressionismo às vistosas cores tropicais, dando origem a um estilo absolutamente original, incompreensível aos olhos do público e do meio acadêmico, porque fugia ao naturalismo consagrado. Como fruto de sua criatividade, colheu pesadas críticas. Enfureceu especialmente o escritor Monteiro Lobato, para quem as raças típicas do Brasil e a natureza deveriam ser fielmente retratadas. As obras de Anita, na época com 28 anos, fizeram com que Lobato publicasse um devastador artigo intitulado Paranóia ou mistificação?, em que, não contente em questionar os méritos artísticos da pintora, ainda a chamava de louca. Mas o tal artigo surtiu efeito contrário. Acendeu o estopim da bomba que explodiria na Semana de Arte Moderna de 1922 e transformou a exposição de Anita em um divisor de águas. Oswald de Andrade tomou as dores da pintora e resolveu responder ao artigo de Monteiro Lobato. Compôs até mesmo um soneto parnasiano em homenagem ao Homem amarelo, uma das obras espinafradas por Lobato. Estava declarada a guerra. Na trincheira contra os conservadores, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, John Graz e Vicente do Rego Monteiro, ao lado de Anita, apresentaram-se na histórica Semana de Arte Moderna de 1922, revelando ao mundo a arte brasileira característica do século XX. Passando fome em Paris O barulho dos modernistas não rendeu dividendos. Em 1926, vivendo em Paris com uma modesta bolsa de estudos, certo dia comprou uma lata de sardinhas. Para não passar fome no jantar, reservou uma sardinha. Não contava com a visita inesperada do velho companheiro de lutas, Di Cavalcanti. Antes mesmo de dizer "boa tarde", Di devorou a sardinha. O tempo se encarregou de recompensar Anita, hoje reconhecida como precursora do modernismo. A artista, que morreu no dia 6 de novembro de 1964, preferiu ficar longe das polêmicas no final da vida. "Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade. Não sou moderna nem antiga, pinto o que me encanta", afirmou.
VOCÊ SABIA? Anita subtraía alguns anos de sua idade porque não queria ser a mais velha integrante do modernismo. Dizia ter nascido em 1896, e não em 1889, como era verdade. Chegou a rasurar a data na carteira de identidade. A mentira dificultou a vida dos pesquisadores, que tiveram muito trabalho para descobrir a data verdadeira.
OBRA DE ARTE:
· O homem amarelo (1915) Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP)
· Mulher de cabelos verdes (1915), coleção particular · A boba (1915), Museu de Arte Contemporânea da USP
· O japonês (1915), (IEB)

ALBERTO GUIGNARD

Certa vez, perguntaram ao pintor Alberto da Veiga Guignard como ele sabia que havia terminado um quadro. "Quando ele faz 'tiiim'...", respondeu o pintor. Sempre visto como um menino ingênuo, era também simples no seu modo de trabalhar. Um dia, guardou no bolso um pão e depois seguiu por uma rua de Belo Horizonte (MG) espalhando migalhas para que os pássaros comessem. Aí retratava a cena. Guignard era capaz de pequenas malandragens, como assinar quadros de seus alunos por achá-los bonitos ou até furtar objetos para poder pintá-los. Certo dia, surrupiou de uma igreja em Ouro Preto (MG) um vaso de prata. Uma beata chamou a polícia, que bateu à sua porta. Mesmo ouvindo os berros dos policiais, o "santo" (como o chamava Di Cavalcanti) não atendeu, e a porta foi arrombada. Levado a julgamento, foi absolvido pelo Tribunal de Justiça, que reconheceu ter o pintor se apoderado do vaso apenas com o intuito de retratá-lo para depois devolvê-lo. Nascido em Nova Friburgo (RJ) a 25 de fevereiro de 1896, aos 21 anos matriculou-se na Real Academia de Belas Artes de Munique (Alemanha) e foi influenciado pelo expressionismo. Em 1929, retornou ao Brasil e, a convite de Juscelino Kubitschek, prefeito de Belo Horizonte na época, mudou-se para Minas Gerais em 1944 para ministrar cursos de pintura. A partir de então, Guignard foi reconhecido por retratar as montanhas mineiras e as cidades históricas do interior. Uma de suas marcas registradas eram os balões de São João. Nos anos 50, o alcoolismo fez com que passasse a depender da ajuda de alunos para comer e morar. Muitas vezes, precisou ser carregado para a casa pelos amigos. Chegou a trocar obras-primas por pratos de comida ou garrafas de bebida, até que, a 26 de junho de 1962, morreu de parada cardíaca, no Hospital São Lucas (MG), depois de tentar apertar a campainha para chamar o enfermeiro.
VOCÊ SABIA? Para sair do sufoco financeiro, usava uma tática infalível. "Pinto um Santo Antônio e vendo barato. Há sempre moças solteiras dispostas a comprar", dizia Guignard.
OBRA DE ARTE:
· A família do fuzileiro naval (1938), Instituto de Estudos Brasileiros (USP)
· São Sebastião (1960), Acervo do Banerj-RJ
· Noite de São João (1961), coleção particular

DI CAVALCANTI

A amizade do pintor Di Cavalcanti não proporcionava apenas conversas exaltadas sobre os assuntos mais corriqueiros da vida. Rendia também surtos de preocupação, que geralmente se davam em plena madrugada. O pintor telefonava para os amigos dizendo que, muito doente, se achava à beira da morte. Todos corriam até o apartamento onde Di morava sozinho, na rua do Catete, no Rio de Janeiro, e o encontravam com inesperada disposição. Segurando o copo de uísque com uma mão e ajeitando a cabeleira branca com a outra, ele consumava mais uma de suas estripulias: "Só preciso de uma boa companhia." Era em busca delas que circulava com a mesma desenvoltura entre rodas de intelectuais ou aristocratas paulistas, bem como nos bordéis da Lapa - os amigos o flagraram no prostíbulo jogando uma partidinha de buraco com uma das moças da casa. Um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna, de 1922, em São Paulo, Di é considerado o pintor modernista que melhor retratou os valores essencialmente populares de nossa cultura. Em sua obra, mulatas sensuais e pescadores robustos ocupam o primeiro plano. A paisagem predileta do artista são as gafieiras, as festas de rua dos subúrbios cariocas e as areias escaldantes da praia. Nascido a 6 de setembro de 1897, na casa do líder abolicionista José do Patrocínio (cunhado de sua mãe), no Rio de Janeiro, Emiliano de Albuquerque Mello não gostava de complicações. "Meu nome é Di Cavalcanti", simplificou, usando um sobrenome de família que não constava de sua certidão. Aprendeu a ler e a pintar precocemente. Ainda criança, estudou piano com Major Rocha, o compositor de Vem cá, mulata, assanhada marchinha de Carnaval. Entoando a Marselhesa É provável que tenha nascido aí a paixão, depois apimentada nos carnavais do Rio, pelas figuras sensuais que tomariam de assalto seus quadros. O primeiro emprego foi como caricaturista da revista Fon-Fon. Em 1916, apresentou seus trabalhos no 1º Salão dos Humoristas. No ano seguinte estava em São Paulo, escrevendo artigos para os jornais. Entrou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas abandonou o curso logo no início. O que fascinava Di eram as artes e o turbulento cenário mundial. Identificados com a causa francesa na Primeira Guerra Mundial, ele e o poeta Ribeiro Couto entraram no Consulado da França entoando a Marselhesa. O diplomata de plantão agradeceu o espírito guerreiro dos dois e explicou que não existia voluntariado aberto. Di não se conformou. Acertou com o Correio da Manhã mandar crônicas e rumou para Paris. Mas preferiu a efervescência cultural aos campos de batalha. Conheceu Matisse, Max Ernst, Léger, uma convivência que o amadureceu e aprimorou sua técnica. Foi um amante irremediável. Apesar de quatro romances avassaladores, teve apenas uma filha adotiva, Elizabeth. A exemplo de Picasso, seu interlocutor nos cafés parisienses, encontrou a felicidade definitiva com uma mulher muito mais jovem. Ivette Bahia Rocha tinha 23 anos quando se envolveu com Di, então com 62. O namoro começou em 1959 e durou 15 anos. "O Di era de um apetite sexual insaciável, conhecemos todos os motéis da época", contou Ivette a ISTOÉ. O Mestre e a Divina, como se chamavam, amarguraram um ano de exílio na França. Di havia sido nomeado adido cultural pelo presidente João Goulart e desembarcara em Paris no dia 31 de março de 1964, véspera do golpe militar. Depois de uma longa noite em um bistrô com Vinícius de Moraes, foi acordado no dia seguinte pelo poeta. "Os militares tomaram o poder", recebeu a má notícia. Custou a acreditar que não era brincadeira de 1º de abril. O pudor dos quadros Militante de esquerda, foi detido quatro vezes, "três por atividades subversivas e uma por ter partido a cara de um condutor de bonde". Cronista e poeta, escreveu dois livros de memórias e se dizia frustrado por não ter entrado na Academia Brasileira de Letras. Morreu a 26 de outubro de 1976 e as cenas do velório foram filmadas pelas lentes de Glauber Rocha, para desespero da filha, que proibiu a exibição da fita, indignada com a confusão armada pelo cineasta. O próprio Di, entretanto, nunca perdeu a irreverência, como testemunhou o pintor pernambucano José Cláudio da Silva. Como ajudante de Di, ele morou com o mestre no apartamento da avenida São João, na capital paulista, em 1955. No dia seguinte à sua chegada, abriu a cortina da janela assim que acordou. Di correu nervoso e alertou o ajudante: "Não faça isso. O quadro é como uma mulher. Não se pode tirar a roupa dela em público. Uma pintura tem também seu pudor, suas intimidades." E cerrou as cortinas.
VOCÊ SABIA? Deu entrada no hospital com fortes dores no peito e esbarrou numa enfermeira que insistia em preencher a ficha antes de socorrê-lo. "Não sabe quem é Di Cavalcanti?" Furioso, tomou um táxi de volta para casa. A dor passou num instante.
OBRA DE ARTE:
· Samba (1925) - acervo particular
· As cinco moças de Guaratinguetá (1930) - Masp
· Mulheres com frutas (1932) - acervo particular
· Os colonos (anos 40) - Museu Nacional de Belas Artes - RJ
· Pescadores (1951) - Museu de Arte Contemporânea da USP

HÉLIO OITICICA

"Agitação súbita ou alegria inesperada." Era o significado de parangolé na gíria dos morros cariocas nos anos 60. Era tanto o burburinho de uma roda de samba quanto o susto de uma batida policial. Mas para o artista plástico Hélio Oiticica parangolés eram capas de algodão ou náilon, com poemas em tinta sobre o tecido. Em repouso, quando estavam fechadas, lembravam "as asas murchas de um pássaro", segundo o poeta Haroldo de Campos. Bastava alguém vesti-las e abrir os braços para que se confundissem com uma "asa-delta para o êxtase", percebeu o poeta. Hélio Oiticica (nascido a 26 de julho de 1937, no Rio de Janeiro) é fruto de um berço rebelde. O avô, José Oiticica escreveu O anarquismo ao alcance de todos. "Depressa! Escondam os livros no piano de cauda!", berrava o velho quando a polícia batia à porta. Durante o Estado Novo, volta e meia era preso na Ilha Rasa. Getúlio Vargas, que jogava golfe nas terras de uns parentes dos Oiticica no Sul, entretanto, intercedia a seu favor. A avó Sinhá sabia a hora em que o ditador regava as flores no Palácio do Catete. Ao vê-la agarrada à grade do jardim, Getúlio acudia: "Ah, já sei, Sinhá. Ele foi preso outra vez. Venha tomar um chá enquanto eu mando soltá-lo." Audácia O pai, José Oiticica Filho, cientista (estudava insetos), pintor e fotógrafo, proibiu os filhos de cumprirem o serviço militar. "Fomos ensinados a pensar com a própria cabeça", afirmou a ISTOÉ o irmão de Hélio, César. Desde cedo foi um pintor audaz. "O quadro está saturado e empobrecido por séculos de parede", diagnosticou. Era preciso, portanto, "saltar fora da tela". Da fase inicial de guache sobre cartão, pulou para os "relevos espaciais" (placas penduradas no teto). O espectador tinha que passear pela sala para observar a obra. Espelhos, luzes e a combinação de tons claros e escuros de vermelho, amarelo e laranja davam a idéia de movimento. Núcleos eram várias chapas retangulares que pareciam "flutuar" ao redor do espectador. Aí inventou os Penetráveis - labirintos em que a pessoa interagia com a obra ao pisar em folhas secas ou na areia e molhar os pés. O mais famoso é o Tropicália, palavra que Hélio inventou e acabou batizando o movimento musical de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eram corredores escuros enredados de fios, com aroma de capim cheiroso, que davam num cubículo em que havia uma tevê ligada. Do lado de fora, plantas tropicais e araras de verdade. O convívio com a vanguarda não o afastou da cultura popular. "Nos anos 50, pintava ao som de Ângela Maria e Cauby Peixoto." Na década de 60, frequentou o morro da Mangueira e virou passista da escola de samba, num tempo em que a classe média preferia aplaudir da arquibancada a sambar na avenida. Nos anos 70, morando em Nova York, apelou a um biscate no tráfico de drogas e se deu mal. Inadimplente junto à máfia, recebeu ultimato: "Ou paga a dívida ou é um homem morto." Os irmãos César e Cláudio o socorreram com US$ 300 por mês. Nessa altura, havia abolido a separação entre obra e casa. Costurou ninhos de fios de plástico luminosos que embrulhavam os visitantes no apartamento. De volta ao Rio, em 1978, recolhia pedaços de asfalto na rua para construir "jardins de escombros" no banheiro. Agonia A pressão alta era mal de família e, sabendo disso, ele se limitou a sucos e soda limonada no final dos anos 70. A 14 de março de 1980, sofreu um derrame cerebral. Sozinho no apartamento, imobilizado e sem voz, mas lúcido, ouvia a campainha tocar e via os amigos passarem bilhetinhos embaixo da porta. A agonia durou quatro dias, até uma amiga pedir licença ao vizinho e entrar pela janela. Morreu a 22 de março. "Ser eleito pelos leitores de ISTOÉ um dos artistas do século indica que, afinal, o público o compreendeu", diz Luciano Figueiredo, ex-coordenador da Fundação Hélio Oiticica.
VOCÊ SABIA? Bólides eram caixas de madeira, plástico ou vidro. Dedicou uma delas a Cara de Cavalo, assaltante morto pela polícia - dentro havia fotos do amigo caído numa poça de sangue. "O crime é a busca desesperada da felicidade autêntica, em contraposição aos falsos valores sociais", escreveu.
OBRA DE ARTE: · Núcleos (a partir de 1960)*
· Penetráveis (a partir de 1960)
· Bólides (a partir de 1963)
· Parangolés (a partir de 1964)
· Ninhos (a partir de 1970) (*) Todas as obras estão em poder da Fundação Hélio Oiticica - RJ

IBERÊ CAMARGO

Não havia força nem razão neste mundo que tirassem a espontaneidade do artista plástico Iberê Camargo. Dizia o que pensava, sem papas na língua, doesse a quem doesse. No começo do governo de Fernando Collor, a esposa de um importante ministro telefonou para sua casa, pedindo que ele fizesse um quadro para uma quermesse a ser realizada em Brasília. O pintor recusoou, alegando falta de tempo, mas assustou-se com a insistência: "É que vamos rifar a tela", admitiu ela, ingenuamente. "Como? Queres que eu doe um quadro para rifar?", enfureceu-se. A mulher prometeu que intercederia ao Planalto para Iberê descer a rampa com o presidente. Aí foi demais. "Mande a rampa e o presidente à merda!", e desligou o telefone. Praças do interior A explosividade do gaúcho Iberê nada tem a ver com o menino retraído nascido em Restinga Seca, a 18 de novembro de 1914. Filho de agentes ferroviários, teve uma infância solitária. A carcaça de bicho-do-mato começou a ceder aos 22 anos, quando empregou-se como desenhista na Secretaria de Obras Públicas do Estado. Enquanto projetava graças do interior, rabiscava alguns esboços. Suas telas foram parar nas mãos do inventor no Rio Grande do Sul, que lhe concedeu uma bolsa de estudos no Rio de Janeiro. No dia em que chegou à antiga capital federal, em 1942, Iberê foi levado para conhecer o ateliê de Candido Portinari. Percebendo que o jovem de olhos argutos e fantásticas sobrancelhas percorria seus quadros com ar de decepção, o mestre quis saber suas impressões. "Sinceramente, não gostei." E foi tomar aulas com Guignard. Cinco anos mais tarde, ganhou no Salão de Arte Moderna, como prêmio, uma viagem ao Exterior. Viveu na Europa entre 1948 e 1950, onde se tornou aprendiz do francês André Lhote e do italiano De Chirico. A amargura sugerida por sua pintura Iberê não tomou emprestada de ninguém. As cores carnais, os carretéis e as bicicletas emergiam da tela como lembranças de menino na paisagem nua dos pampas. De volta ao Rio, Iberê já podia sobreviver da arte, ainda que sem grandes luxos. Vencedor do prêmio da Bienal de São Paulo de 1961, queixava-se da qualidade do material de pintura nacional e só usava tintas belgas. Gastava até US$ 2 mil por quadro na compra do produto. Sobrava pouco dinheiro. "Nosso primeiro imóvel foi comprado com tanto sacrifício que o Iberê se apegou à casa e não saía para nada", contou Maria Camargo, 83 anos, com quem o pintor esteve casado durante meio século. Quando saía, preocupava-se com a violência da cidade grande. Pensava em aprender judô ou caratê, mas uma hérnia de disco o impediu. Comprou, então, um revólver para se defender. Era o dia 5 de dezembro de 1980 quando aconteceu a maior tragédia na vida de Iberê, uma sexta-feira negra que o atormentou até os últimos dias. O pintor deixou o ateliê mais cedo, à procura de uma loja de cartões natalinos. Quando dobrava uma esquina no bairro de Botafogo, parou para observar a discussão de um casal. O marido, vestindo apenas um calção, irritou-se: "O que é que está olhando?" Após um empurra-empurra, Iberê e o desconhecido caíram no chão. Assustado, Iberê sacou a arma e matou o homem. Detido na hora, passou um mês na prisão, até receber habeas-corpus. No julgamento, prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa. Nocautes de sábado Submergindo num naufrágio inelutável, bombardeado pela imprensa e abandonado pelos falsos amigos, resolveu fazer as malas e voltar para Porto Alegre. Trancava-se em casa para atravessar madrugadas pintando. Aos sábados, também passava a noite em branco, mas era para ver as lutas de boxe na televisão. Mantinha aversão à tecnologia e morria de medo de trocar lâmpadas. Falava do Brasil com profunda desilusão. "É melhor apearmos o trem da história." Não gostava de cachorros nem de crianças (teve apenas uma filha, Gerci, fruto de um romance passageiro na década de 30). Renovou as amizades, mas encontrou o verdadeiro companheirismo em 1983, no gato Martim - "meu cucuruco", como o chamava. O pintor colocava o bichano no bolso do macacão enquanto preparava seus quadros e fazia questão que Maria pusesse um prato de comida para o gato na mesa de jantar. "O animal é melhor do que o homem, que hoje come na tua mesa e amanhã te faz velhacaria", comparava. Apesar do câncer que se espalhava por seu corpo, dizia que viveria até os 200 anos. Provavelmente, pintando. No leito da morte, fez cinco desenhos incompreendidos pelos amigos. E ainda requisitou uma espátula para retocar sua última tela, Solidão, iniciada alguns dias antes. Iberê faleceu a 9 de agosto de 1994. O gato Martim morreu alguns meses depois, tão silencioso e amargurado quando o dono.
VOCÊ SABIA? Apreciava as boas comédias do cinema, mas se irritava com o barulho e os movimentos do espectador sentado na poltrona de trás. Para evitar chutes e joelhadas nas costas, Iberê encontrou uma solução inusitada: pagava uma entrada a um amigo, que era obrigado a assistir ao filme inteiro atrás dele, quietinho e sem se movimentar.
OBRA DE ARTE:
· Pássaro (1971), acervo particular
· Fantasmagoria (1987), coleção Maria Camargo
· Ciclistas (1989), coleção Maria Camargo
· Maria (1990), acervo particular
· No vento e na terra I (1991), Centro Cultural Aplub, Porto Alegre.

LASAR SEGALL

Todas as vezes que Lasar Segal e a esposa, Jenny, saíam à noite não podiam esquecer de levar biscoitos nos bolsos dos casacos. Na volta, um enorme vira-lata estaria esperando no portão de casa, com a língua de fora e o rabo abanando de ansiedade. O biscoito era jogado para distrair o animal enquanto eles entravam, mas o truque às vezes falhava e o casal era obrigado a acordar o filho Maurício, a quem o cão obedecia sem problemas. O bicho não era carinhoso, rosnava para todo mundo, inclusive para os donos da casa, mas não o mandou embora porque tinha dó do pobre coitado - e do resto dos animais do planeta. Quando roubaram o vira-lata, entretanto, deu um jantar em comemoração. Andar pelo jardim da casa onde o pintor morou durante quase 30 anos, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, era como passear no zoológico. Animais de todas as espécies - gansos, veados, pássaros, gatos, cachorros - circulavam por ali. Foi assim, cercado por esta fauna, do jeito que sempre gostou, que Segall trabalhou anos a fio, produzindo telas que retratam desde os horrores da guerra e do holocausto até as mais exuberantes paisagens brasileiras. "O Brasil revelou-me o milagre da luz e da cor. Sinto que neste país todas as coisas parecem mais leves. Eleva-nos da terra. Ensina a alegria", disse o pintor, judeu de Vilna, capital da Lituânia. Algumas falcatruas no meio do caminho ajudaram-no a chegar onde queria. Nasceu a 23 de julho de 1891, mas falsificou seus documentos pessoais para ser aceito na Imperial Academia Superior de Belas Artes, de Berlim, no início de 1907. A escola não aceitava alunos com menos de 16 anos. O esforço só valeu a pena pelo número infinito de amigos que fez na nova cidade, já que três anos depois da chegada o pintor rompeu com o academicismo. Charme Quando desembarcou aqui, em 1923, fugindo da crise européia do pós-guerra, Segall já era um artista consagrado na Alemanha, onde iniciou a carreira. Um dos fundadores do grupo Secessão de Dresden de 1919, vanguarda embrionária do movimento expressionista alemão, uniu-se aos modernistas brasileiros na década de 30, introduzido na turma pelo poeta Mário de Andrade. Na São Paulo desse período não havia homem mais elegante que Lasar Segall. "Nunca o vi sair sem chapéu, terno e gravata. E não podia ser de qualquer alfaiate", disse Oscar, o filho caçula. Tinha uma coleção finíssima de chapéus, mas amarfanhava-os cuidadosamente até que parecessem velhos. Dizia que dava um certo charme. Assíduo frequentador de bailes, quando fundou, com Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, a Spam - Sociedade Pró-Arte Moderna -, passou a promover as festas à fantasia mais disputadas da cidade. "O Baile do Mau Gosto, nos anos 40, era famoso. Faziam também matinês e ele próprio cuidava da decoração", disse Maurício, o filho mais velho. Bombas no cinema Era detalhista, exigente, metódico. "Chegou a desmontar uma exposição, no Rio, no dia do vernissage, quando viu que a disposição dos quadros não estava do jeito que queria. Os convidados estavam chegando e ele carregava as obras para o lado de fora", conta Oscar. Paciente e perfeccionista, levava semanas estudando uma pincelada. O acesso ao ateliê era vetado aos amigos, esposa e filhos e só poucos privilegiados tinham a oportunidade de apreciar suas obras antes das exposições. Nenhuma superstição, não. "De supersticioso, ele não tinha nada", diz Maurício, "e fazia questão de dizer para todo mundo que era judeu". No Brasil, foi um dos principais líderes do movimento contra o anti-semitismo. Quando as salas de projeção paulistanas anunciavam a estréia de um filme oficial alemão nos tempos de Hitler, era o primeiro a protestar. Com uma turma de amigos, jogava bombas em frente aos cinemas lotados e corria em disparada para fugir da polícia. Na manhã do dia 2 de agosto de 1957, Lasar Segall sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. Estava com 66 anos, 32 deles vividos ao lado de Jenny. A casa onde morou é hoje um museu que leva seu nome, dirigido pelo filho Maurício, e possui um acervo de quatro mil obras.
VOCÊ SABIA? Doava telas para os mais chegados, mas depois ia na casa do sujeito conferir onde ele a tinha pendurado. "A cortina não combina, a luz não está boa..." Se as alterações não eram aceitas, confiscava o quadro.
OBRA DE ARTE:
· Eternos caminhantes (1919)*
· Paisagem brasileira (1925)
· Pogrom (1937)
· Floresta crepuscular (1954)
· Navio de emigrantes (1939-1941) (*) Todas as obras estão no Museu Lasar Segall - SP

LYGIA CLARK

A artista plástica mineira Lygia Clark acreditava que arte e terapia psicológica andavam de mãos dadas. Tanto que, com base em objetos manuseáveis que criava ou recolhia da natureza, como balões de ar, sacos de terra e água e até pedras, pensava ter o dom de curar os males da alma. Certa feita, uma aluna entrou em transe profundo e caiu desmaiada, durante uma das sessões da arteterapia de Lygia, na Sorbonne, em Paris, na década de 70. Dando graças a Deus que não era nada grave, a artista explicou que a jovem não tinha o preparo psicológico necessário para suportar os exercícios de sensibilização e relaxamentos, que "liberavam os conteúdos reprimidos e a imaginação" dos alunos. Aqueles instrumentos, que nas mãos de Lygia assumiam poderes imprevisíveis, eram chamados por ela de Objetos sensoriais. Tais objetos nunca foram vistos por bons olhos por psicanalistas franceses e brasileiros, porque ela não tinha formação acadêmica na área. Lygia, por sua vez, não deixava ninguém sem resposta. Comprava briga com qualquer um que ousasse falar mal de seu trabalho, que tinha por trás conceitos dos mais sofisticados, elaborados por ela mesma. Nascida na Belo Horizonte de 1920, numa tradicional família mineira, esqueceu tudo o que aprendera no colégio de freiras Sacre-Coeur depois que resolveu virar pintora, em 1947. Naquele ano, mudou-se para o Rio, decidida a estudar pintura com Roberto Burle Marx. Até juntar-se ao amigo e também artista plástico Hélio Oiticica, na década de 50, não ousava em sua arte. Com Oiticica, entretanto, aventurou-se em grupos de vanguarda como o Frente, de Ivan Serpa, e os neoconcretos, que incluíam o poeta Ferreira Gullar. "Detesto ler, gosto mais é de encher a cara e jogar biriba", dizia Lygia. Definitivamente, não era uma mulher como as outras de seu tempo - aquelas que só sabiam bordar e cozinhar, além de cuidar do marido e dos filhos. Não que ela nunca tivesse feito isso, pelo contrário. Casou virgem aos 18 anos, com o engenheiro Aloisio Ribeiro, e foi mãe de três filhos. Mas o tempo passou e Lygia foi se dedicando cada vez mais ao trabalho, até que foi devidamente recompensada, nos anos 60, quando ganhou reconhecimento internacional. Não como pintora, é verdade, mas por suas experiências terapêuticas. Na década de 70, rejeitou o rótulo de artista e exigiu ser chamada de "propositora". Deu aulas na Sorbonne, de 1972 a 1977, e voltou ao Brasil em 1978 para dar consultas particulares. Dez anos depois, morreu de parada cardíaca. Estava com 68 anos e deixou uma legião de seguidores que não se cansam de reinventar sua arte.
VOCÊ SABIA? Corajosos eram os que se atreviam a frequentar suas sessões de arteterapia na década de 70. Segundo Lygia, seu método para a "liberação dos conteúdos reprimidos" era tão eficiente que homossexuais viravam heterossexuais e vice-versa.
OBRA DE ARTE:
· Caminhando (1964)*
· Pedra e ar (1966)
· Nostalgia do corpo (de 1965 a 1988)
· Canibalismo (1973) (*) Todas as obras de acervo particular.

MANABU MABE

Para entrar na casa dos Mabe, o visitante não precisa tirar os sapatos, como é tradição em certas residências japonesas. Mas a cada passo sente-se a mistura da espiritualidade zen dos orientais com as cores dos trópicos, fornecidas em abundância pelas telas do patriarca Manabu. Entre uma e outra sala da confortável mansão no bairro do Jabaquara, na zona sul de São Paulo, observa-se o acervo familiar, de pelo menos 250 obras. Todos podam as árvores e cuidam prazerosamente dos lagos repletos de carpas. E formam uma harmoniosa família, estruturada como se fosse uma empresa. O filho Yugo é artista plástico, Joh é galerista e Ken projeta o futuro museu que levará o nome do pai. A viúva Yoshino também experimenta a alegria dos pincéis. Respira-se arte numa paisagem cercada de arranha-céus. Morto em 1997, Manabu Mabe é a grande ausência nesse recanto mágico da pintura. "Tudo o que existe aqui tem um pouco dele", afirmou Yugo. Mabe dizia aplicar na casa cada centavo, inspirado nas memórias dos jardins em que brincava na infância. O pintor nasceu em Kumamoto, no Japão, a 14 de setembro de 1924. A família veio para o Brasil quando ele tinha dez anos. Do porto de Santos, foram todos para os cafezais do interior paulista. O árduo trabalho na lavoura deixou as mãos de Mabe calejadas, mas não afetou a imensa precisão nos traços. A rotina era cansativa, a arte era um sonho. Nos domingos e, principalmente, nos dias de chuva driblava o mau tempo e as poucas horas vagas desenhando nos sacos de embalar café. Em 1957, Mabe decidiu vender as terras que tinha conseguido comprar em Lins (SP) e seguiu para a capital. Para honrar a dívida de US$ 2 mil, propôs ceder telas suas ao banco. O credor não aceitou e só perdoou o débito quando Mabe ofereceu galinhas da antiga fazenda. O artista plástico trabalhou como ajudante de tintureiro e pintou gravatas de seda que a esposa confeccionava. Vez ou outra, os amigos compravam seus quadros. Mas, apenas dois anos depois, saiu do anonimato e suas obras começaram a percorrer o mundo. Em 1959, ganhou prêmios das Bienais de São Paulo e Paris. Subitamente, mergulhou na fama. Manabu Mabe expôs em 19 países, uma marca espetacular que prova o reconhecimento de crítica e público. Karaokês Embora tivesse se naturalizado brasileiro em 1960, era uma notoriedade no Japão, para onde viajava anualmente. Também adorava cantar, e os karaokês nas noites de domingo reuniam toda a família. Eram verdadeiros festivais de canções japonesas, mas sempre havia espaço para a latina Besame mucho, no forte sotaque nipônico do artista plástico. Na intimidade, era um sujeito expansivo, de ótimo astral. Não perdeu o bom humor nem com a queda de um cargueiro da Varig, em 1979, que transportava 53 telas suas em exposição pelo mundo - entre elas as mais premiadas. O avião fazia a rota Tóquio-Los Angeles e as causas do acidente até hoje não foram esclarecidas. "Ainda bem que o pintor está vivo", brincava. Passou 14 anos refazendo grande parte dos quadros, que pertenciam a acervos particulares. Apesar de boêmio, levantava no máximo às oito da manhã para pintar. Diabético, faleceu a 22 de setembro de 1997. É um exemplo concreto da saga de milhares de japoneses que migraram para uma terra distante e construíram vida nova. Mabe confessava ser um apaixonado pelo Brasil. E ensinava: "É preciso crer sempre no sonho e lutar para que ele se torne real."
VOCÊ SABIA? Amante do golfe, era quase tão bom nas tacadas quanto nos pincéis. Realizou um feito dificílimo, mesmo para profissionais. Em 1980, acertou um holy one, encaçapando a bola com apenas uma tacada, a 215 metros do buraco. Ganhou uma placa comemorativa pela jogada.
OBRA DE ARTE:
· Vibração momentânea (1995), acervo familiar
· Profeta I (1959), desaparecida em 1979
· Pedaço de luz (1959), desaparecida em 1979
· Canção do imigrante (1978), Museu de Kumamoto, Japão
· Poema pastoral (1988), acervo familiar

TARSILA DO AMARAL

"Pegue-se três litros do visgo da amizade/ajunte-se três quilos do açúcar cristalizado da admiração/perfume-se com cinco tragos da pinga do entusiasmo/mexa-se até ficar melado bem pegajento/e se engula tudo duma vez..." Essa era a receita, sob a forma de um poema de Mário de Andrade, dos badalados jantares na rua Barão de Piracicaba, no centro da São Paulo dos anos 20. No casarão morava uma das mais aristocráticas famílias paulistas, dona de plantações de café no interior. E com uma charmosa e ilustre integrante: a pintora Tarsila do Amaral, na época casada com o poeta e escritor Oswald de Andrade. Serviam os banquetes entre uma e outra viagem a Paris, onde os dois artistas fixavam residência quase uma vez por ano. Num período mais longo de estadia no Brasil, no início de 1928, Tarsila evocou as criaturas míticas da infância que saíam das histórias contadas pelas negras descendentes de escravas nas fazendas dos avós. Queria dar um presente de aniversário ao marido, algo que o impressionasse. Começou a pintar uma tela, que entregou a Oswald no dia de seu aniversário, a 11 de janeiro. Ao receber o quadro, ele ficou extasiado com sua beleza. Chamou o amigo Raul Bopp e sugeriu que dessem à obra o nome de um selvagem, pois a figura parecia um gigante. Lembraram-se do dicionário de tupi que Tarsila guardava na cabeceira e encontraram o termo certo: Abaporu, o homem que come carne humana. Estava fundada a antropofagia, um dos mais importantes movimentos artísticos brasileiros, que preconizava a devoração cultural das técnicas importadas dos países desenvolvidos para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação. Antropofagia Principal representante da antropofagia nas artes plásticas e precursora do surrealismo no Brasil, Tarsila nasceu a 1º de setembro de 1886, na cidade paulista de Capivari. Seu avô, o "Milionário", tinha tanto dinheiro que resolveu comprar o luxuoso Hotel D'Oeste, em São Paulo, simplesmente porque um empregado não o havia deixado se hospedar por causa da aparência de um homem simples. A família mandou Tarsila estudar na Europa. Ela frequentou a Academia Julian e os ateliês de André Lhote, Albert Gleizers e Fernand Léger. Depois de idas e vindas, desembarcou no Brasil em 1922, quatro meses após a Semana de Arte Moderna. Então, formou-se o grupo dos cinco, capitaneando a maior reviravolta da cultura nacional neste século, o modernismo: Tarsila, Menotti del Picchia, Anita Malfatti, Oswald e Mário de Andrade. Em 1925, fez uma excursão pelas cidades históricas de Minas Gerais. Registrou em suas telas a redescoberta do interior simples e puro, das cores caipiras, no movimento chamado de pau-brasil. Perdeu grande parte das terras na crise de 1929 e deu início à pintura social, retratando o desamparo do homem despersonalizado pela industrialização. A jovem Tarsila era de uma beleza edificante, desfilava com altivez, os brincos pendentes quase tocando os ombros. Menotti del Picchia costumava lembrar o dia em que a conheceu: "Tinha eu na frente uma das criaturas mais belas, harmoniosas e elegantes que me fora dado ver." A pintora csaou-se quatro vezes - duas oficialmente. O primeiro casamento acabou por causa do ciúme do marido, que não queria vê-la pintando. O segundo, com Oswald, durou até 1930, quando ele a traiu. Depois veio a união com um médico que a levou para as reuniões do Partido Comunista (a pintora viajou para a Rússia em 1931 e passou um mês na cadeia, ao retornar ao País). Por fim, um romance de duas décadas, com um crítico de arte 20 anos mais jovem. Teve uma filha e uma neta. Ambas morreram antes dela. Conseguiu vencer a tristeza com as palavras de ânimo do médium Francisco Xavier, seu amigo pessoal. Sarcasmo Gostava de ouvir piadas, não pelo sarcasmo de quem as contasse, e sim pelos erros de português. Morria de rir com as falhas. Corrigia uma por uma, mania que adquiriu com as intensas leituras, principalmente de dicionários. No fim da vida, estudava grego antigo e recitava poesias incompreensíveis. Já não podia andar, limitada a uma cadeira de rodas após uma cirurgia na coluna. Morreu de câncer a 17 de janeiro de 1973. Foi enterrada de vestido branco, conforme seu desejo. O Abaporu (o presente dado a Oswald) foi leiloado em 1995, por US$ 1,3 milhão. É até hoje a obra mais valiosa comercializada em leilão por um pintor brasileiro.
VOCÊ SABIA? Dona de um paladar apuradíssimo, adorava pratos da culinária francesa e não dispensava uma batidinha de limão ou pinga das fazendas do interior. Também fazia pilhas de cadernos com as receitas dos pratos que a fascinavam, anotando tudo minuciosamente. Mas ela mesma era uma negação na cozinha. Às vezes, enquanto pintava, quebrava e engolia a gema do ovo só para não ter de cozinhá-lo.
OBRA DE ARTE:
· A negra (1923), Museu de Arte Contemporânea da USP, SP
· O mamoeiro (1925), Instituto de Estudos Brasileiros da USP
· Abaporu (1928), acervo particular.
· Antropofagia (1928), acervo particular
· Operários (1933), Palácio do Governo, Campos do Jordão, SP

VILANOVA ARTIGAS

De repente batiam na porta da casa do velho Artigas, no bairro do Campo Belo, em São Paulo. Quem era? Certamente um admirador que trazia uma garrafa de vinho como "pedágio" para ouvir a fala simples, entre os dentes, que crescia do metro e sessenta do arquiteto e professor João Batista Vilanova Artigas. Comunista ferrenho, Artigas foi afastado das aulas em 1969, durante o regime militar, depois de 30 anos lecionando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que projetara e ajudara a fundar. Mas não abandonou a vocação de mestre e continuou reunindo em sua casa alguns dos mais de dois mil arquitetos que ajudou a formar. Também abria a porta para personalidades. "O Luís Carlos Prestes apareceu cinco vezes por lá e o Carlos Marighela até levou uma mordida do Lobo", lembra o filho Júlio, referindo-se ao pastor alemão que, às vezes, recebia os visitantes com ferozes dentadas. Nascido em Curitiba (a 23 de junho de 1915), Artigas veio a São Paulo aos 17 anos para estudar Arquitetura. Frequentava grupos de artistas plásticos (onde conheceu a esposa, Virgínia, com quem teve dois filhos) e desenhava modelos vivos, o que era considerado uma maluquice pelos colegas. O esforço resultou em projetos modernos e ousados que privilegiam o espaço coletivo. Ganhador de prêmio internacionais e um dos fundadores do Instituto dos Arquitetos do Brasil, voltou à FAU em 1980 para ocupar o cargo de auxiliar de ensino, recuperando a cadeira de professor titular quatro anos mais tarde. Morreu pouco depois, a 5 de janeiro de 1985, para se transformar num paradigma do ensino de Arquitetura no País. "Se as formas são absurdas, é porque as premissas são irracionais", repetia.
VOCÊ SABIA? Por brincadeira, calculou tudo o que havia bebido a vida inteira: "Deve dar US$ 1 milhão." Apreciava vinho e uísque. Retirava o rótulo das garrafas e colava na parede.
OBRA DE ARTE:
· Estação rodoviária de Londrina-PR (1950)
· Estádio do Morumbi-SP (1952)
· Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/USP (1961)
· Estação rodoviária de Jaú-SP (1973)

Oscar Niemeyer

O sol de Copacabana inunda de luz o escritório de paredes brancas de Oscar Niemeyer na cobertura do velho edifício Ypiranga, na avenida Atlântica. As janelas envidraçadas expõem o mar e as montanhas da paisagem de cartão-postal na manhã esplendorosa do outono carioca. O arquiteto está no corredor que conduz à sala dos fundos, silencioso, ausente, entregue a si mesmo, levemente encurvado sobre a prancheta. "Não me chama de senhor. Não sou senhor-de-engenho, como dizia Prestes." No porta-retratos sobre a mesa, vê-se o líder comunista Luís Carlos Prestes, em local indefinido (um ato de protesto, presume-se) e data incerta (o rosto é jovem e altivo). "Repara o queixo dele, está sangrando, tinha acabado de levar um murro." Agora que os olhos se habituaram à intensa luminosidade matinal, dá para ler as palavras de ordem riscadas nas paredes do enorme salão de Niemeyer - "Quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, a revolução é o caminho a seguir", por exemplo. Não é necessário ser perito de alguma polícia secreta para adivinhar o autor do crime. O traço irregular, como se fosse pontuado de minúsculas e infinitas curvas, o denuncia. Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares, carioca nascido a 15 de dezembro de 1907, fala com a voz pausada e em baixo volume, como convém a um homem de 91 anos. - "Alcaçar essa idade é uma merda, mas é bom." Sua obra, esta sim, é grandiosa, eloquente, carece de pruridos ideológicos. Os projetos acanhados, econômicos, ele soube evitar: "A idéia de simplicidade arquitetural é demagogia." Curva livre e sensual Sobretudo, esquivou-se a vida toda do enfadonho e monótono ângulo reto. "Também não me atrai a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas de meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida." Mais de 400 projetos saíram de sua prancheta. Há pelo menos 180 edifícios com a assinatura de Niemeyer no Exterior. No Brasil, ele se faz presente em oito capitais e mais de 30 municípios do interior. A seu respeito foram escritos três dezenas de livros em oito idiomas, incluindo japonês e grego. Não é só o arquiteto brasileiro mais importante do século. É um dos cinco ou seis gênios da raça paridos em 500 anos de História. Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro comentou: "A gente imagina que, daqui a 300 anos, ainda vão falar de nós, mas é ilusão. Vão lembrar só do Oscar. Sempre haverá alguém estudando a obra dele." Com faíscas saindo dos olhos, como era habitual, Darcy bem podia ter acrescentado: "E estarão todos paralisados de espanto!" As montanhas nos olhos Niemeyer segue à risca o dogma que roubou do poeta francês Charles Baudelaire: "O inesperado, a irregularidade e a surpresa são parte essencial e característica da beleza." Em 1936, quando o suíço Le Corbusier (teórico número 1 da arquitetura moderna) saltou de um zepellin para ajudar a construir o edifício do Ministério da Educação, se impressionou com o jovem Niemeyer: "Esse moço tem as montanhas do Rio nos olhos." Ele era um aprendiz que, alguns anos antes, convencera o arquiteto Lúcio Costa a estagiar de graça em seu escritório. Para falar a verdade, Niemeyer queria pagar para trabalhar. "Era simpático, mas não mostrou talento. Na época, não apostaria um tostão nele", diria Lúcio Costa anos depois. Niemeyer aprendeu depressa a lição básica: com o advento do concreto armado e das estruturas de metal, a parede não precisava mais cumprir o dever milenar de sustentar o peso do prédio e, com isso, ganhara salvo-conduto para ser, antes de tudo, bela. "Essa idéia me libertou", diz Niemeyer. "Pensando bem, nada disso importa" - ele muda de assunto de repente. "O importante é melhorar o ser humano, sentir a própria fragilidade." A idéia de que os homens são casas antigas que precisam ser reformadas é uma obsessão. E de todas as casas, a de alicerces mais firmes na memória é a de Laranjeiras, onde viveu até os 20 anos. A família era muito católica - a avó Mariquinhas abria a janela e chamava os vizinhos para rezar missa em casa. O avô Ribeiro de Almeida foi procurador-geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal. "Morreu pobre e deixou a casa hipotecada. Que orgulho! Há tantos roubando dinheiro público hoje." A juventude ele gastou nos cabarés da Lapa. "Ficava olhando o mulherio e tocando bandolim." No Café Lamas, no Flamengo, o garçom Orelha fazia a gentileza de telefonar de manhã cedo para acordá-lo. Outro prazer era o Fluminense. Chegou a jogar a preliminar de um Fla-Flu. "Era um bom atacante", ele jura. Mas a paixão arrefeceu. "É time de grã-fino." A farra diminuiu quando casou com Anita, com quem teve uma filha (tem cinco netos, nove bisnetos e dois trinetos). O poder público foi sempre seu principal cliente. Trabalhou para vários políticos de vários matizes - Leonel Brizola, Orestes Quércia e Paulo Maluf, entre outros. Fernando Henrique Cardoso não é dos preferidos: "Não o aprovo. Sou do tempo de berrar que o petróleo é nosso." O predileto foi Juscelino Kubitschek, que conheceu em 1940, quando JK era prefeito de Belo Horizonte e o chamou para construir o bairro da Pampulha. "Era um príncipe da Renascença." Nos anos 50, para implantar Brasília, alguém do governo prometeu a Niemeyer uma "comissão". Ele se enfureceu. "Era como se a palavra exalasse corrupção. Depois soube que se referia à comissão usual paga aos arquitetos." Com salário de 40 mil cruzeiros, absolutamente ridículo para a monumental tarefa, Niemeyer exigiu que o governo contratasse um punhado de amigos que, à primeira vista, nada tinham a ver com a obra. Havia um goleiro do Flamengo e mais quatro companheiros "que estavam na merda e eu queria ajudar", confessa. Mão-aberta A fama de mão-aberta ele ganhou em 1945 ao dar a chave do escritório a Prestes, que acabara de sair da masmorra do Estado Novo, para ele montar a sede do PCB. Não faz muito, deu R$ 7 mil ao porteiro do prédio onde mora. O homem tinha câncer e queria realizar o sonho da casa própria. Sustentou anos a fio Trifino Correa, militar ligado ao PCB. "Estava em situação desesperadora. Ao ganhar aumento de soldo, pediu para baixar a ajuda de custo. Isso é que é honestidade!" A mais famosa história de desapego é a do apartamento que deu não ao Partidão, mas ao próprio Prestes, no início dos anos 80. Quando Prestes pediu o boné no PCB, saiu com ele. "Estar de bem com os amigos é o que importa. Não dá para ficar sozinho, porque a vida é perversa, não tem solução", especula, os olhos castigados pelo sol da janela. "Se fosse rico, morreria de vergonha", completa, antes de proibir que se fotografe a cadeira de espreguiçar, cheia de ondas, que ele desenhou, exceto se o Pão de Açúcar estiver ao fundo. É como se a cadeira existisse apenas para compor a paisagem tropical de uma beleza que cega, justamente ali, no escritório do velho edifício Ypiranga, em Copacabana.
VOCÊ SABIA? Pediu ao prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, que entregasse uma carta a Fidel Castro. Nela, informava ter indicado o líder cubano ao Prêmio Lenin da Paz. Fidel coçou a barba e ficou alguns minutos quieto ao ler a mensagem. "Parece mentira. Só restaram dois comunistas no mundo. O Niemeyer e eu."
VOCÊ SABIA? Sentiu que os reflexos dos lampiões pareciam embaraçar a vista. Pensando estar em vias de ficar cego, bateu à porta do consultório médico do irmão, Paulo. "Espera aí. Me dá esses óculos", pediu Paulo. Limpou as lentes sujas de poeira na própria camisa e as devolveu a Niemeyer. "Pronto. Está curado."
OBRA DE ARTE
· Pampulha - BH (1940)
· Sede da ONU - Nova York (1947)
· Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Catedral - Brasília (1960)
· Memorial da América Latina - SP (1987)
· Museu de Arte Contemporânea - Niterói (1991)





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