Espaço
Cultural |
|
SÉRGIO BERNARDES "Se não
me examinarem, estou ótimo", responde, sempre muito bem-humorado, o
arquiteto carioca Sérgio Bernardes a qualquer um que pergunte como vai
levando a vida. Saudosista, orgulha-se em contar suas numerosas aventuras,
e não é para menos. Aos 16 anos, cursou pilotagem no aeroclube de
Manguinhos (RJ) porque queria fazer acrobacias. E fez muitas pelo céu do
Brasil, com seu próprio monomotor. Comprado nos anos 50 para auxiliá-lo
nas viagens de trabalho, o arquiteto uniu o útil ao agradável, ensaiando
arriscadas pilotagens a caminho do dever. Aos 17 anos, participava de
corridas pelas avenidas do Rio. Certo dia, correndo no circuito da Gávea
(RJ), capotou na avenida Niemeyer, na altura da Gruta da Imprensa, caindo
ele e um amigo ao mar. Apesar de seus 80 anos, Sérgio Bernardes encontra
disposição para trabalhar por mais de 12 horas diárias, criando e
armazenando idéias num acervo que já soma mais seis mil projetos,
acumulados durante 65 anos de trabalho. "Na verdade, sou um vagabundo e só
não mato alguém por preguiça de esconder o corpo", define-se. Nascido a 9
de abril de 1919, construiu várias obras de importância histórica
espalhadas pelo País. Embora sem colocação política definida, sempre fez
projetos para os militares. Até que o presidente Geisel descobriu que
Bernardes estava a serviço de oficiais suspeitos de simpatizarem com a
esquerda. Nervoso, cancelou um de seus mais importantes projetos, o
Comando Naval de Brasília, que estava em andamento em 1972. Bernardes
ficou quase 20 anos sem trabalho, em razão da ditadura militar. Foi quando
partiu para os projetos residenciais, aos quais se dedica até hoje.
Na
década de 40, um milionário paulistano encomendou a Bruno Giorgi dois
pinguins esculpidos no gelo para guardar gordas porções de caviar durante
um banquete. A encomenda foi entregue, mas não durou até o final da festa.
Em pouco tempo, o caviar estava esparramado pela mesa e o anfitrião
xingava o artista com toda a força de seus pulmões. No dia seguinte, o
homem mandou avisar Bruno que não pagaria um tostão pelo trabalho e que a
conta do caviar desperdiçado estava chegando para ele pagar. Esta era uma
das poucas histórias que o escultor Bruno Giorgi contava. "Ficava dias
inteiros na sala de estar sem conversar, lendo e fitando o vazio", contou
Jones Bergamin, um dos raros amigos do escultor. Vez por outra, o artista
soltava algumas frases que pareciam resultado de horas de elaboração. "O
creme não compensa" era uma delas, que dizia quando lhe ofereciam café com
creme de leite, que ele detestava. Era ensimesmado, mas não caipira.
Embora fosse nascido no interior de São Paulo (em Mococa) a 13 de agosto
de 1905, era um cosmopolita. Aos seis anos, mudou-se com os pais (um casal
de italianos) e os dois irmãos para Roma. No início dos anos 30, foi a
Paris estudar as técnicas da escultura com Aristide Maillol e, de volta ao
Brasil, em 1939, construiu uma das mais importantes trajetórias da arte
brasileira. Em 40 anos de profissão, esculpiu centenas de dorsos femininos
- seu tema preferido - e obras que se tornariam cartões-postais do País,
como Os Candangos, monumento símbolo de Brasília. "Era anarquista em tudo
o que pensava e anárquico em tudo o que fazia", disse Leontina, a esposa
que viveu com Bruno durante 23 anos - o filho do casal nasceu quando o
artista tinha 78 anos. A militância no Partido Comunista lhe valeu cinco
anos de prisão na Itália, de 1931 a 1935. "Levou as idéias libertárias até
para o trabalho. Não tinha a menor organização e nem se preocupava em
guardar ou rever obras. Quando não gostava, simplesmente as desmanchava",
lembra Leontina. Num canto do ateliê, ele se encolhia e passava horas
lambuzando as mãos de barro e lapidando o mármore. O pó do mármore causou
danos aos brônquios, já que ele nunca usou uma máscara de proteção.
Debilitado, morreu aos 88 anos, de parada cardíaca no Rio de Janeiro.
BURLE MARX A sorte
de Roberto Burle Marx foi morar no Leme, na zona sul carioca, no início
dos anos 30, em frente à casa do arquiteto Lúcio Costa. Burle Marx era um
jovem de 23 anos que passava boa parte do tempo cuidando de um jardim que
atraía a atenção dos vizinhos. Costa era apenas um dos que perdiam minutos
diários admirando as plantas cultivadas com um esmero incansável. Numa
manhã de 1932, tocou a campainha e propôs que Burle Marx elaborasse o
projeto paisagístico de uma casa projetada por ele para a família
Schwartz, em Copacabana. O jovem aceitou no ato. Naquele tempo, não
imaginava que, 60 anos depois, teria em seu currículo cerca de dois mil
projetos no mundo inteiro. Muitos foram feitos para mansões particulares,
mas o artista preferia se dedicar aos parques públicos. "Devolvem às
pessoas o verde que a cidade lhes roubou." Reconhecido internacionalmente
como paisagista, desagradava a crítica quando se arriscava na pintura.
Entretanto, era de seu feitio não dar a menor trela para opiniões alheias.
Ele pintava mesmo assim e muito bem, obrigado. Foi também designer,
arquiteto, tapeceiro e pioneiro da ecologia no Brasil. Antes de pensar em
ser tudo isso, sonhava com uma brilhante carreira de cantor lírico. A voz
de tenor aprazia os amigos, para quem ele cantava árias de suas óperas
preferidas. Carioca de espírito Paulistano, nascido a 4 de agosto de 1909,
dizia-se um "carioca de espírito". Filho do alemão Guilherme Marx e da
pernambucana Cecília Burle, mudou-se com a família para o Rio aos quatro
anos e só abandonou a cidade para morar na Alemanha, dos 19 aos 22 anos.
Ironicamente, foi lá, onde estudava música, que conheceu a flora
brasileira, enquanto passeava pelo Jardim Botânico de Dahlen. "Não era um
deslumbrado, daqueles que suspiram quando vêem um pôr-do-sol. Amava a
natureza de um jeito simples e lutava com todas as suas forças contra o
desmatamento", disse Robério Dias, ex-aluno que hoje dirige o Sítio Burle
Marx, em Barra de Guaratiba, no Rio. No início dos anos 70, mudou-se em
definitivo para o sítio comprado em 1949. "Só faço jardim para os outros e
não tenho nenhum para mim", disse na época, com seu peculiar bom humor.
Tinha o sonho de transformar a área num centro de referência para estudos
de botânica. Em vida, cultivou 3,5 mil espécies de plantas no terreno de
365 mil metros quadrados. A paixão e a curiosidade pela natureza eram tão
grandes que Burle Marx costumava organizar excursões semestrais pelos
quatro cantos do País, empenhado em descobrir a flora brasileira. Fez
verdadeiras missões par ao Pantanal, a Amazônia, o sertão nordestino, o
Paraná e onde mais pudesse chegar com sua "frota" (um ônibus, três carros
e um pequeno caminhão). A comitiva era formada por amigos, parentes,
botânicos, estagiários, curiosos e quem mais quisesse ir. Mobilizava, além
dos convidados, uma dezena de auxiliares para transportar as plantas para
o Rio. "A turma chegava cansada. Ele era o primeiro a pular do ônibus,
cheio de animação", lembra Robério. Tanta dedicação valeu a pena:
catalogou 46 novas plantas. Em 1994, uma tentativa de sequestro o deixou
profundamente deprimido e pode ter contribuído para abreviar a vida de
Burle Marx. Homens armados invadiram o sítio, mas a operação dos bandidos
foi frustrada pelos seguranças da casa. Três meses depois, médicos
diagnosticaram um câncer no abdômen do paisagista. Morreu a 4 de julho,
aos 84 anos, deixando tudo o que tinha de herança para os funcionários.
LINA BO BARDI O prédio
do Museu de Arte de São Paulo, famoso pelo impressionante vão de 78 metros
de comprimento, no topo da avenida Paulista, contrasta com os arranha-céus
de estilo yuppie. Um palácio de concreto e vidro, com área de dez mil
metros quadrados, apoiado em apenas quatro pilares de oito metros de
altura, o edifício é uma gota de racionalidade em meio a um oceano de mau
gosto. Bastaria que Lina Bo Bardi, italiana naturalizada brasileira,
tivesse projetado o Masp para assegurar um lugar de honra entre os
arquitetos do século. Mas ela fez muito mais. De sua prancheta nasceram,
por exemplo, o centro de lazer Sesc Fábrica da Pompéia e a sede da
prefeitura da capital paulista, no Parque Dom Pedro II, na zona leste da
cidade. Quando analisava a própria obra, entretanto, rendia-se à modéstia.
"Talvez a mais importante seja a capelinha miserável em Uberlândia, feita
sem dinheiro, com os padres franciscanos e as prostitutas." Antifascista
Lina nasceu a 5 de dezembro de 1914, em Roma. As lembranças de infância
sempre lhe pareceram insuficientes para uma auto-biografia que não chegou
a escrever. "O que eu queria era ter história. Com 25 anos, queria
escrever memórias, mas não tinha matéria." Logo após formar-se em
Arquitetura, na Faculdade de Roma, em 1940. Lina trabalhou no escritório
do célebre arquiteto Gió Ponti, diretor das Trienais de Milão e da revista
Domus. "Eu não vou pagar você, você é que tem de me pagar", avisou ele. E
Lina trabalhou das oito da manhã à meia-noite, sábados e domingos
inclusos, desenhando desde xícaras, cadeiras e roupas até projetos
urbanísticos. Era diretora da revista de Ponti quando resolveu entrar para
a Resistência antifascista. País inimaginável Esta militante que se
definia como "stalinista, militarista e antifeminista" apaixonou-se pelo
marchand Pietro Maria Bardi, que um dia apareceu na redação da Domus para
lhe conceder uma entrevista. "Não queria casar, mas é chato se hospedar
num hotel juntos sem se estar casado", justificou. No final de 1946,
Pietro aceitou o convite de Assis Chateaubriand, empresário das
comunicações no Brasil, para criar um museu em terras tropicais. "Para
quem chegava ao Rio de Janeiro pelo mar, o edifício do Ministério da
Educação (obra de Lúcio Costa) avançava como um grande navio branco e azul
contra o céu. Me senti num país inimaginável, onde tudo era possível." O
museu deveria ser erguido em São Paulo, "onde estava o dinheiro", embora
Lina considerasse a capital paulista "confusa, sem lugar para passear". Em
1951, o casal naturalizou-se, finalmente. Chateaubriand conseguiu o
dinheiro para o projeto do Masp, inaugurado em 1968. Lina não se limitou,
no entanto, a produzir obras na capital paulista. No final dos anos 50,
por exemplo, o governador da Bahia, Juracy Magalhães, convidou Lina para
fundar o Museu de Arte Moderna em Salvador. O edifício pegou fogo no dia
da inauguração. Ela não esmoreceu e, 30 anos depois, dedicou-se à
restauração do centro histórico de Salvador. A falta de verba impediu que
ela completasse o trabalho. Entre as obras que conseguiu concluir, estão a
Ladeira da Misericórdia, a Casa do Olodum e a Fundação Pierre Verger. Lina
e Pietro viviam na Casa de Vidro, um projeto inusitado de Lina, construído
em 1950 no bairro do Morumbi, em São Paulo, cercado por oito mil metros
quadrados de Mata Atlântica. "Quando nos mudamos, havia até bicho-preguiça
lá." Lina morreu a 20 de março de 1992, de embolia pulmonar, aos 77 anos,
e suas cinzas foram depositadas numa das paredes da Casa de Vidro. "Eu não
nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país
duas vezes, é minha 'pátria de escolha', e eu me sinto cidadã de todas as
cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e às
da fronteira", escreveu Lina. VOCÊ SABIA? Lina era também grande arquiteta
na cozinha, embora não soubesse picar um tomate sequer. Depois que os
outros preparavam os alimentos, ela acomodava a comida nos pratos segundo
padrões estéticos e arquitetônicos rigorosos. LÚCIO COSTA
JOSÉ PANCETTI Era um
marinheiro que pintava ou um pintor que gostava de navegar? Filho de
imigrantes italianos, Giuseppe Giannini Pancetti (teve o nome
abrasileirado logo depois de nascer, a 18 de junho de 1904, em Campinas,
no interior paulista) nunca soube responder ao certo. O pai chegou a São
Paulo em 1891 para trabalhar como mestre-de-obras na construção do Teatro
Municipal. Aos oito anos de idade, o menino viajou para a Itália com um
tio e arrumou um biscate de carpinteiro num serviço especializado - fazia
caixões de defunto. Não era o futuro que desejava e, logo que o moleque
virou rapaz, entrou para a Marinha Mercante italiana, jogando-se no mundo.
Em 1920, voltou ao Brasil para ganhar a vida como pintor de paredes. Nessa
época, dormiu em bancos de praças até conseguir uma vaga na Marinha
brasileira. A primeira embarcação nacional que tripulou foi o destróier
Paraná. Passou a pintar as marinhas e os companheiros de farda, quando não
era encarregado de passar tinta no próprio navio. Especializou-se no
casco. Os comandantes o requisitavam para pintar os camarotes e Pancetti
gozava de consideração especial junto aos superiores. Ainda era marinheiro
quando estudou artes plásticas no Rio de Janeiro. Em 1933, o marujo
semi-analfabeto foi aceito no Salão de Belas Artes, na antiga capital,
onde ganhou prêmios e reconhecimento do meio artístico. No início dos anos
40, Pancetti descobriu que estava tuberculoso e escolheu Campos do Jordão
(SP) para se tratar. Ao menor sinal de melhora, buscava seu velho
companheiro, o mar, para pintar horizontes e rebentações. Morreu a 10 de
fevereiro de 1958, de câncer pulmonar. Candido Portinari
VICTOR BRECHERET Em 1907,
alguém deixou cair uma revista francesa na calçada da rua Barão de
Itapetininga, no centro de São Paulo, sem saber que fazia um favor para a
arte brasileira. O fato é que um adolescente de 13 anos que passava por
ali, fazedo seu percurso diário da casa para a escola, apanhou a
publicação. Não entendia nada de francês, mas ficou fascinado pelas
reproduções de algumas obras do escultor Rodin. Era Victor Brecheret,
(nascido em São Paulo a 22 de fevereiro de 1894), que resolveu
matricular-se no Liceu de Artes e Ofícios naquele mesmo dia. Quando
concluiu o curso, em 1912, foi encontrar-se com a mãe na Itália. Depois da
morte do marido, em 1896, ela voltou para a terra natal, deixando o filho
no Brasil aos cuidados dos tios. Em Roma, Victor foi o discípulo mais
aplicado do escultor Dazzi, até a morte do ídolo Rodin. Em 1917, foi a
Paris só para acompanhar os funerais do escultor, e acabou se apaixonando
pela atmosfera cultural da cidade. Ficou por lá até o início dos anos 30,
quando a saudade apertou e ele voltou ao Brasil. Nessa altura, era o
escultor mais importante do modernismo brasileiro. Tinha participado da
Semana de 1922, enviando algumas obras diretamente de Paris. Sem palavras
Era homem de poucas palavras. "Sempre calado, só se comunicava através de
seu trabalho", disse Victor Brecheret Filho. Em 1936, iniciou sua
principal obra - que levou 33 anos para ficar pronta -, o Monumento às
Bandeiras, hoje um velho conhecido dos paulistanos que passam diariamente
em frente ao Parque do Ibirapuera. Em 40 anos de produção intensiva,
espalhou 18 esculturas pela capital paulista e dezenas de outras em museus
do Brasil e do Exterior. "A arte era um sacerdócio para ele. Mesmo nos
finais de semana, projetava esculturas pelos cantos da casa", lembra o
filho. A esposa, Juranda, com quem viveu 19 anos, avisou: "Trabalhando
desse jeito, vai morrer cedo." Sem desviar os olhos da escultura que
fazia, respondeu: "Um artista não precisa viver muito, basta que fiquem
suas obras." Morreu de parada cardíaca, em dezembro de 1955. "Brecheret
foi a escultura de São Paulo", resumiu Oswald de Andrade. ALFREDO VOLPI
ANITA MALFATTI Quem
desdenha quer comprar. Só um ditado popular poderia explicar a reação do
escritor Mário de Andrade diante das obras da precursora do modernismo,
Anita Malfatti. Em 1917, avisado sobre uma exposição "esquisita e cheia de
coisas dantescas" na capital paulista, resolveu conferir a novidade. Logo
ao entrar, deparou-se com retratos de figuras deformadas. Na composição
dos quadros, a pintora usara cores fortes, lançando-as em pinceladas
bruscas. As obras não assumiam nenhum compromisso em refletir a realidade,
conforme pregava o conservadorismo impregnado nas artes brasileiras. Mário
olhou para O homem amarelo, A mulher de cabelos verdes e A boba e não se
conteve. Soltou escandalosas gargalhadas, pois não compreendia o que via,
até que a responsável pelas ousadias surgiu enfurecida. "O que está tão
engraçado aqui?", perguntou Anita Malfatti. A resposta só veio alguns anos
depois. O escritor retornou várias vezes à mesma exposição e acabou
virando um dos melhores amigos de Anita. Trocavam correspondências diárias
e, na Semana de Arte Moderna de 1922, Mário adquiriu O homem amarelo, do
qual debochara. "Só não comprei na exposição de 1917 porque faltou
dinheiro", disfarçou ele. Atrofia congênita "Anita foi a primeira a
abandonar os acadêmicos, a ter contato e aceitar as vanguardas. Ela foi
influenciada por vários estilos, como o fauvismo e o cubismo e montou sua
própria linguagem expressionista", afirma Marta Rossetti, diretora do
Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Nascida em São Paulo, a 2 de
dezembro de 1889, era filha de imigrantes. O pai, Samuel, natural de
Lucca, na Itália, era engenheiro e trabalhou em estradas de ferro e na
construção civil. A mãe, Eleonora, americana, falava vários idiomas,
desenhava e pintava. Teve grande influência na formação artística de
Anita. A menina sofria de uma atrofia congênita na mão direita. Aos três
anos de idade, a mãe a levou para a Itália, à procura de tratamento para
curá-la, mas foi em vão. Com grande força de vontade, Anita aprendeu a
escrever, desenhar e pintar só com a mão esquerda. Aos 20 anos, morando em
Berlim sozinha, contamina-se pela atmosfera expressionista que tomara
conta da cidade. Durante um ano, frequenta a Academia Real de Belas Artes.
Em 1913, volta para o Brasil e, dois anos depois, passa uma temporada nos
Estados Unidos. Quando retorna, em 1916, está entusiasmada com o que
aprendera no Exterior. A exposição do ano seguinte, que escandalizou Mário
de Andrade, incluía 53 pinturas, exibidas em um salão alugado da rua
Líbero Badaró, no centro de São Paulo. Anita uniu o expressionismo às
vistosas cores tropicais, dando origem a um estilo absolutamente original,
incompreensível aos olhos do público e do meio acadêmico, porque fugia ao
naturalismo consagrado. Como fruto de sua criatividade, colheu pesadas
críticas. Enfureceu especialmente o escritor Monteiro Lobato, para quem as
raças típicas do Brasil e a natureza deveriam ser fielmente retratadas. As
obras de Anita, na época com 28 anos, fizeram com que Lobato publicasse um
devastador artigo intitulado Paranóia ou mistificação?, em que, não
contente em questionar os méritos artísticos da pintora, ainda a chamava
de louca. Mas o tal artigo surtiu efeito contrário. Acendeu o estopim da
bomba que explodiria na Semana de Arte Moderna de 1922 e transformou a
exposição de Anita em um divisor de águas. Oswald de Andrade tomou as
dores da pintora e resolveu responder ao artigo de Monteiro Lobato. Compôs
até mesmo um soneto parnasiano em homenagem ao Homem amarelo, uma das
obras espinafradas por Lobato. Estava declarada a guerra. Na trincheira
contra os conservadores, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, John Graz e
Vicente do Rego Monteiro, ao lado de Anita, apresentaram-se na histórica
Semana de Arte Moderna de 1922, revelando ao mundo a arte brasileira
característica do século XX. Passando fome em Paris O barulho dos
modernistas não rendeu dividendos. Em 1926, vivendo em Paris com uma
modesta bolsa de estudos, certo dia comprou uma lata de sardinhas. Para
não passar fome no jantar, reservou uma sardinha. Não contava com a visita
inesperada do velho companheiro de lutas, Di Cavalcanti. Antes mesmo de
dizer "boa tarde", Di devorou a sardinha. O tempo se encarregou de
recompensar Anita, hoje reconhecida como precursora do modernismo. A
artista, que morreu no dia 6 de novembro de 1964, preferiu ficar longe das
polêmicas no final da vida. "Procurei todas as técnicas e voltei à
simplicidade. Não sou moderna nem antiga, pinto o que me encanta",
afirmou. ALBERTO GUIGNARD Certa
vez, perguntaram ao pintor Alberto da Veiga Guignard como ele sabia que
havia terminado um quadro. "Quando ele faz 'tiiim'...", respondeu o
pintor. Sempre visto como um menino ingênuo, era também simples no seu
modo de trabalhar. Um dia, guardou no bolso um pão e depois seguiu por uma
rua de Belo Horizonte (MG) espalhando migalhas para que os pássaros
comessem. Aí retratava a cena. Guignard era capaz de pequenas
malandragens, como assinar quadros de seus alunos por achá-los bonitos ou
até furtar objetos para poder pintá-los. Certo dia, surrupiou de uma
igreja em Ouro Preto (MG) um vaso de prata. Uma beata chamou a polícia,
que bateu à sua porta. Mesmo ouvindo os berros dos policiais, o "santo"
(como o chamava Di Cavalcanti) não atendeu, e a porta foi arrombada.
Levado a julgamento, foi absolvido pelo Tribunal de Justiça, que
reconheceu ter o pintor se apoderado do vaso apenas com o intuito de
retratá-lo para depois devolvê-lo. Nascido em Nova Friburgo (RJ) a 25 de
fevereiro de 1896, aos 21 anos matriculou-se na Real Academia de Belas
Artes de Munique (Alemanha) e foi influenciado pelo expressionismo. Em
1929, retornou ao Brasil e, a convite de Juscelino Kubitschek, prefeito de
Belo Horizonte na época, mudou-se para Minas Gerais em 1944 para ministrar
cursos de pintura. A partir de então, Guignard foi reconhecido por
retratar as montanhas mineiras e as cidades históricas do interior. Uma de
suas marcas registradas eram os balões de São João. Nos anos 50, o
alcoolismo fez com que passasse a depender da ajuda de alunos para comer e
morar. Muitas vezes, precisou ser carregado para a casa pelos amigos.
Chegou a trocar obras-primas por pratos de comida ou garrafas de bebida,
até que, a 26 de junho de 1962, morreu de parada cardíaca, no Hospital São
Lucas (MG), depois de tentar apertar a campainha para chamar o enfermeiro.
DI CAVALCANTI A
amizade do pintor Di Cavalcanti não proporcionava apenas conversas
exaltadas sobre os assuntos mais corriqueiros da vida. Rendia também
surtos de preocupação, que geralmente se davam em plena madrugada. O
pintor telefonava para os amigos dizendo que, muito doente, se achava à
beira da morte. Todos corriam até o apartamento onde Di morava sozinho, na
rua do Catete, no Rio de Janeiro, e o encontravam com inesperada
disposição. Segurando o copo de uísque com uma mão e ajeitando a cabeleira
branca com a outra, ele consumava mais uma de suas estripulias: "Só
preciso de uma boa companhia." Era em busca delas que circulava com a
mesma desenvoltura entre rodas de intelectuais ou aristocratas paulistas,
bem como nos bordéis da Lapa - os amigos o flagraram no prostíbulo jogando
uma partidinha de buraco com uma das moças da casa. Um dos idealizadores
da Semana de Arte Moderna, de 1922, em São Paulo, Di é considerado o
pintor modernista que melhor retratou os valores essencialmente populares
de nossa cultura. Em sua obra, mulatas sensuais e pescadores robustos
ocupam o primeiro plano. A paisagem predileta do artista são as gafieiras,
as festas de rua dos subúrbios cariocas e as areias escaldantes da praia.
Nascido a 6 de setembro de 1897, na casa do líder abolicionista José do
Patrocínio (cunhado de sua mãe), no Rio de Janeiro, Emiliano de
Albuquerque Mello não gostava de complicações. "Meu nome é Di Cavalcanti",
simplificou, usando um sobrenome de família que não constava de sua
certidão. Aprendeu a ler e a pintar precocemente. Ainda criança, estudou
piano com Major Rocha, o compositor de Vem cá, mulata, assanhada marchinha
de Carnaval. Entoando a Marselhesa É provável que tenha nascido aí a
paixão, depois apimentada nos carnavais do Rio, pelas figuras sensuais que
tomariam de assalto seus quadros. O primeiro emprego foi como
caricaturista da revista Fon-Fon. Em 1916, apresentou seus trabalhos no 1º
Salão dos Humoristas. No ano seguinte estava em São Paulo, escrevendo
artigos para os jornais. Entrou na Faculdade de Direito do Largo São
Francisco, mas abandonou o curso logo no início. O que fascinava Di eram
as artes e o turbulento cenário mundial. Identificados com a causa
francesa na Primeira Guerra Mundial, ele e o poeta Ribeiro Couto entraram
no Consulado da França entoando a Marselhesa. O diplomata de plantão
agradeceu o espírito guerreiro dos dois e explicou que não existia
voluntariado aberto. Di não se conformou. Acertou com o Correio da Manhã
mandar crônicas e rumou para Paris. Mas preferiu a efervescência cultural
aos campos de batalha. Conheceu Matisse, Max Ernst, Léger, uma convivência
que o amadureceu e aprimorou sua técnica. Foi um amante irremediável.
Apesar de quatro romances avassaladores, teve apenas uma filha adotiva,
Elizabeth. A exemplo de Picasso, seu interlocutor nos cafés parisienses,
encontrou a felicidade definitiva com uma mulher muito mais jovem. Ivette
Bahia Rocha tinha 23 anos quando se envolveu com Di, então com 62. O
namoro começou em 1959 e durou 15 anos. "O Di era de um apetite sexual
insaciável, conhecemos todos os motéis da época", contou Ivette a ISTOÉ. O
Mestre e a Divina, como se chamavam, amarguraram um ano de exílio na
França. Di havia sido nomeado adido cultural pelo presidente João Goulart
e desembarcara em Paris no dia 31 de março de 1964, véspera do golpe
militar. Depois de uma longa noite em um bistrô com Vinícius de Moraes,
foi acordado no dia seguinte pelo poeta. "Os militares tomaram o poder",
recebeu a má notícia. Custou a acreditar que não era brincadeira de 1º de
abril. O pudor dos quadros Militante de esquerda, foi detido quatro vezes,
"três por atividades subversivas e uma por ter partido a cara de um
condutor de bonde". Cronista e poeta, escreveu dois livros de memórias e
se dizia frustrado por não ter entrado na Academia Brasileira de Letras.
Morreu a 26 de outubro de 1976 e as cenas do velório foram filmadas pelas
lentes de Glauber Rocha, para desespero da filha, que proibiu a exibição
da fita, indignada com a confusão armada pelo cineasta. O próprio Di,
entretanto, nunca perdeu a irreverência, como testemunhou o pintor
pernambucano José Cláudio da Silva. Como ajudante de Di, ele morou com o
mestre no apartamento da avenida São João, na capital paulista, em 1955.
No dia seguinte à sua chegada, abriu a cortina da janela assim que
acordou. Di correu nervoso e alertou o ajudante: "Não faça isso. O quadro
é como uma mulher. Não se pode tirar a roupa dela em público. Uma pintura
tem também seu pudor, suas intimidades." E cerrou as cortinas. HÉLIO OITICICA "Agitação súbita ou alegria inesperada." Era o significado de
parangolé na gíria dos morros cariocas nos anos 60. Era tanto o burburinho
de uma roda de samba quanto o susto de uma batida policial. Mas para o
artista plástico Hélio Oiticica parangolés eram capas de algodão ou
náilon, com poemas em tinta sobre o tecido. Em repouso, quando estavam
fechadas, lembravam "as asas murchas de um pássaro", segundo o poeta
Haroldo de Campos. Bastava alguém vesti-las e abrir os braços para que se
confundissem com uma "asa-delta para o êxtase", percebeu o poeta. Hélio
Oiticica (nascido a 26 de julho de 1937, no Rio de Janeiro) é fruto de um
berço rebelde. O avô, José Oiticica escreveu O anarquismo ao alcance de
todos. "Depressa! Escondam os livros no piano de cauda!", berrava o velho
quando a polícia batia à porta. Durante o Estado Novo, volta e meia era
preso na Ilha Rasa. Getúlio Vargas, que jogava golfe nas terras de uns
parentes dos Oiticica no Sul, entretanto, intercedia a seu favor. A avó
Sinhá sabia a hora em que o ditador regava as flores no Palácio do Catete.
Ao vê-la agarrada à grade do jardim, Getúlio acudia: "Ah, já sei, Sinhá.
Ele foi preso outra vez. Venha tomar um chá enquanto eu mando soltá-lo."
Audácia O pai, José Oiticica Filho, cientista (estudava insetos), pintor e
fotógrafo, proibiu os filhos de cumprirem o serviço militar. "Fomos
ensinados a pensar com a própria cabeça", afirmou a ISTOÉ o irmão de
Hélio, César. Desde cedo foi um pintor audaz. "O quadro está saturado e
empobrecido por séculos de parede", diagnosticou. Era preciso, portanto,
"saltar fora da tela". Da fase inicial de guache sobre cartão, pulou para
os "relevos espaciais" (placas penduradas no teto). O espectador tinha que
passear pela sala para observar a obra. Espelhos, luzes e a combinação de
tons claros e escuros de vermelho, amarelo e laranja davam a idéia de
movimento. Núcleos eram várias chapas retangulares que pareciam "flutuar"
ao redor do espectador. Aí inventou os Penetráveis - labirintos em que a
pessoa interagia com a obra ao pisar em folhas secas ou na areia e molhar
os pés. O mais famoso é o Tropicália, palavra que Hélio inventou e acabou
batizando o movimento musical de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eram
corredores escuros enredados de fios, com aroma de capim cheiroso, que
davam num cubículo em que havia uma tevê ligada. Do lado de fora, plantas
tropicais e araras de verdade. O convívio com a vanguarda não o afastou da
cultura popular. "Nos anos 50, pintava ao som de Ângela Maria e Cauby
Peixoto." Na década de 60, frequentou o morro da Mangueira e virou
passista da escola de samba, num tempo em que a classe média preferia
aplaudir da arquibancada a sambar na avenida. Nos anos 70, morando em Nova
York, apelou a um biscate no tráfico de drogas e se deu mal. Inadimplente
junto à máfia, recebeu ultimato: "Ou paga a dívida ou é um homem morto."
Os irmãos César e Cláudio o socorreram com US$ 300 por mês. Nessa altura,
havia abolido a separação entre obra e casa. Costurou ninhos de fios de
plástico luminosos que embrulhavam os visitantes no apartamento. De volta
ao Rio, em 1978, recolhia pedaços de asfalto na rua para construir
"jardins de escombros" no banheiro. Agonia A pressão alta era mal de
família e, sabendo disso, ele se limitou a sucos e soda limonada no final
dos anos 70. A 14 de março de 1980, sofreu um derrame cerebral. Sozinho no
apartamento, imobilizado e sem voz, mas lúcido, ouvia a campainha tocar e
via os amigos passarem bilhetinhos embaixo da porta. A agonia durou quatro
dias, até uma amiga pedir licença ao vizinho e entrar pela janela. Morreu
a 22 de março. "Ser eleito pelos leitores de ISTOÉ um dos artistas do
século indica que, afinal, o público o compreendeu", diz Luciano
Figueiredo, ex-coordenador da Fundação Hélio Oiticica. IBERÊ CAMARGO Não
havia força nem razão neste mundo que tirassem a espontaneidade do artista
plástico Iberê Camargo. Dizia o que pensava, sem papas na língua, doesse a
quem doesse. No começo do governo de Fernando Collor, a esposa de um
importante ministro telefonou para sua casa, pedindo que ele fizesse um
quadro para uma quermesse a ser realizada em Brasília. O pintor recusoou,
alegando falta de tempo, mas assustou-se com a insistência: "É que vamos
rifar a tela", admitiu ela, ingenuamente. "Como? Queres que eu doe um
quadro para rifar?", enfureceu-se. A mulher prometeu que intercederia ao
Planalto para Iberê descer a rampa com o presidente. Aí foi demais. "Mande
a rampa e o presidente à merda!", e desligou o telefone. Praças do
interior A explosividade do gaúcho Iberê nada tem a ver com o menino
retraído nascido em Restinga Seca, a 18 de novembro de 1914. Filho de
agentes ferroviários, teve uma infância solitária. A carcaça de
bicho-do-mato começou a ceder aos 22 anos, quando empregou-se como
desenhista na Secretaria de Obras Públicas do Estado. Enquanto projetava
graças do interior, rabiscava alguns esboços. Suas telas foram parar nas
mãos do inventor no Rio Grande do Sul, que lhe concedeu uma bolsa de
estudos no Rio de Janeiro. No dia em que chegou à antiga capital federal,
em 1942, Iberê foi levado para conhecer o ateliê de Candido Portinari.
Percebendo que o jovem de olhos argutos e fantásticas sobrancelhas
percorria seus quadros com ar de decepção, o mestre quis saber suas
impressões. "Sinceramente, não gostei." E foi tomar aulas com Guignard.
Cinco anos mais tarde, ganhou no Salão de Arte Moderna, como prêmio, uma
viagem ao Exterior. Viveu na Europa entre 1948 e 1950, onde se tornou
aprendiz do francês André Lhote e do italiano De Chirico. A amargura
sugerida por sua pintura Iberê não tomou emprestada de ninguém. As cores
carnais, os carretéis e as bicicletas emergiam da tela como lembranças de
menino na paisagem nua dos pampas. De volta ao Rio, Iberê já podia
sobreviver da arte, ainda que sem grandes luxos. Vencedor do prêmio da
Bienal de São Paulo de 1961, queixava-se da qualidade do material de
pintura nacional e só usava tintas belgas. Gastava até US$ 2 mil por
quadro na compra do produto. Sobrava pouco dinheiro. "Nosso primeiro
imóvel foi comprado com tanto sacrifício que o Iberê se apegou à casa e
não saía para nada", contou Maria Camargo, 83 anos, com quem o pintor
esteve casado durante meio século. Quando saía, preocupava-se com a
violência da cidade grande. Pensava em aprender judô ou caratê, mas uma
hérnia de disco o impediu. Comprou, então, um revólver para se defender.
Era o dia 5 de dezembro de 1980 quando aconteceu a maior tragédia na vida
de Iberê, uma sexta-feira negra que o atormentou até os últimos dias. O
pintor deixou o ateliê mais cedo, à procura de uma loja de cartões
natalinos. Quando dobrava uma esquina no bairro de Botafogo, parou para
observar a discussão de um casal. O marido, vestindo apenas um calção,
irritou-se: "O que é que está olhando?" Após um empurra-empurra, Iberê e o
desconhecido caíram no chão. Assustado, Iberê sacou a arma e matou o
homem. Detido na hora, passou um mês na prisão, até receber habeas-corpus.
No julgamento, prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa. Nocautes
de sábado Submergindo num naufrágio inelutável, bombardeado pela imprensa
e abandonado pelos falsos amigos, resolveu fazer as malas e voltar para
Porto Alegre. Trancava-se em casa para atravessar madrugadas pintando. Aos
sábados, também passava a noite em branco, mas era para ver as lutas de
boxe na televisão. Mantinha aversão à tecnologia e morria de medo de
trocar lâmpadas. Falava do Brasil com profunda desilusão. "É melhor
apearmos o trem da história." Não gostava de cachorros nem de crianças
(teve apenas uma filha, Gerci, fruto de um romance passageiro na década de
30). Renovou as amizades, mas encontrou o verdadeiro companheirismo em
1983, no gato Martim - "meu cucuruco", como o chamava. O pintor colocava o
bichano no bolso do macacão enquanto preparava seus quadros e fazia
questão que Maria pusesse um prato de comida para o gato na mesa de
jantar. "O animal é melhor do que o homem, que hoje come na tua mesa e
amanhã te faz velhacaria", comparava. Apesar do câncer que se espalhava
por seu corpo, dizia que viveria até os 200 anos. Provavelmente, pintando.
No leito da morte, fez cinco desenhos incompreendidos pelos amigos. E
ainda requisitou uma espátula para retocar sua última tela, Solidão,
iniciada alguns dias antes. Iberê faleceu a 9 de agosto de 1994. O gato
Martim morreu alguns meses depois, tão silencioso e amargurado quando o
dono. LASAR SEGALL Todas as
vezes que Lasar Segal e a esposa, Jenny, saíam à noite não podiam esquecer
de levar biscoitos nos bolsos dos casacos. Na volta, um enorme vira-lata
estaria esperando no portão de casa, com a língua de fora e o rabo
abanando de ansiedade. O biscoito era jogado para distrair o animal
enquanto eles entravam, mas o truque às vezes falhava e o casal era
obrigado a acordar o filho Maurício, a quem o cão obedecia sem problemas.
O bicho não era carinhoso, rosnava para todo mundo, inclusive para os
donos da casa, mas não o mandou embora porque tinha dó do pobre coitado -
e do resto dos animais do planeta. Quando roubaram o vira-lata,
entretanto, deu um jantar em comemoração. Andar pelo jardim da casa onde o
pintor morou durante quase 30 anos, na Vila Mariana, zona sul de São
Paulo, era como passear no zoológico. Animais de todas as espécies -
gansos, veados, pássaros, gatos, cachorros - circulavam por ali. Foi
assim, cercado por esta fauna, do jeito que sempre gostou, que Segall
trabalhou anos a fio, produzindo telas que retratam desde os horrores da
guerra e do holocausto até as mais exuberantes paisagens brasileiras. "O
Brasil revelou-me o milagre da luz e da cor. Sinto que neste país todas as
coisas parecem mais leves. Eleva-nos da terra. Ensina a alegria", disse o
pintor, judeu de Vilna, capital da Lituânia. Algumas falcatruas no meio do
caminho ajudaram-no a chegar onde queria. Nasceu a 23 de julho de 1891,
mas falsificou seus documentos pessoais para ser aceito na Imperial
Academia Superior de Belas Artes, de Berlim, no início de 1907. A escola
não aceitava alunos com menos de 16 anos. O esforço só valeu a pena pelo
número infinito de amigos que fez na nova cidade, já que três anos depois
da chegada o pintor rompeu com o academicismo. Charme Quando desembarcou
aqui, em 1923, fugindo da crise européia do pós-guerra, Segall já era um
artista consagrado na Alemanha, onde iniciou a carreira. Um dos fundadores
do grupo Secessão de Dresden de 1919, vanguarda embrionária do movimento
expressionista alemão, uniu-se aos modernistas brasileiros na década de
30, introduzido na turma pelo poeta Mário de Andrade. Na São Paulo desse
período não havia homem mais elegante que Lasar Segall. "Nunca o vi sair
sem chapéu, terno e gravata. E não podia ser de qualquer alfaiate", disse
Oscar, o filho caçula. Tinha uma coleção finíssima de chapéus, mas
amarfanhava-os cuidadosamente até que parecessem velhos. Dizia que dava um
certo charme. Assíduo frequentador de bailes, quando fundou, com Mário de
Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, a Spam - Sociedade Pró-Arte
Moderna -, passou a promover as festas à fantasia mais disputadas da
cidade. "O Baile do Mau Gosto, nos anos 40, era famoso. Faziam também
matinês e ele próprio cuidava da decoração", disse Maurício, o filho mais
velho. Bombas no cinema Era detalhista, exigente, metódico. "Chegou a
desmontar uma exposição, no Rio, no dia do vernissage, quando viu que a
disposição dos quadros não estava do jeito que queria. Os convidados
estavam chegando e ele carregava as obras para o lado de fora", conta
Oscar. Paciente e perfeccionista, levava semanas estudando uma pincelada.
O acesso ao ateliê era vetado aos amigos, esposa e filhos e só poucos
privilegiados tinham a oportunidade de apreciar suas obras antes das
exposições. Nenhuma superstição, não. "De supersticioso, ele não tinha
nada", diz Maurício, "e fazia questão de dizer para todo mundo que era
judeu". No Brasil, foi um dos principais líderes do movimento contra o
anti-semitismo. Quando as salas de projeção paulistanas anunciavam a
estréia de um filme oficial alemão nos tempos de Hitler, era o primeiro a
protestar. Com uma turma de amigos, jogava bombas em frente aos cinemas
lotados e corria em disparada para fugir da polícia. Na manhã do dia 2 de
agosto de 1957, Lasar Segall sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.
Estava com 66 anos, 32 deles vividos ao lado de Jenny. A casa onde morou é
hoje um museu que leva seu nome, dirigido pelo filho Maurício, e possui um
acervo de quatro mil obras. LYGIA CLARK A
artista plástica mineira Lygia Clark acreditava que arte e terapia
psicológica andavam de mãos dadas. Tanto que, com base em objetos
manuseáveis que criava ou recolhia da natureza, como balões de ar, sacos
de terra e água e até pedras, pensava ter o dom de curar os males da alma.
Certa feita, uma aluna entrou em transe profundo e caiu desmaiada, durante
uma das sessões da arteterapia de Lygia, na Sorbonne, em Paris, na década
de 70. Dando graças a Deus que não era nada grave, a artista explicou que
a jovem não tinha o preparo psicológico necessário para suportar os
exercícios de sensibilização e relaxamentos, que "liberavam os conteúdos
reprimidos e a imaginação" dos alunos. Aqueles instrumentos, que nas mãos
de Lygia assumiam poderes imprevisíveis, eram chamados por ela de Objetos
sensoriais. Tais objetos nunca foram vistos por bons olhos por
psicanalistas franceses e brasileiros, porque ela não tinha formação
acadêmica na área. Lygia, por sua vez, não deixava ninguém sem resposta.
Comprava briga com qualquer um que ousasse falar mal de seu trabalho, que
tinha por trás conceitos dos mais sofisticados, elaborados por ela mesma.
Nascida na Belo Horizonte de 1920, numa tradicional família mineira,
esqueceu tudo o que aprendera no colégio de freiras Sacre-Coeur depois que
resolveu virar pintora, em 1947. Naquele ano, mudou-se para o Rio,
decidida a estudar pintura com Roberto Burle Marx. Até juntar-se ao amigo
e também artista plástico Hélio Oiticica, na década de 50, não ousava em
sua arte. Com Oiticica, entretanto, aventurou-se em grupos de vanguarda
como o Frente, de Ivan Serpa, e os neoconcretos, que incluíam o poeta
Ferreira Gullar. "Detesto ler, gosto mais é de encher a cara e jogar
biriba", dizia Lygia. Definitivamente, não era uma mulher como as outras
de seu tempo - aquelas que só sabiam bordar e cozinhar, além de cuidar do
marido e dos filhos. Não que ela nunca tivesse feito isso, pelo contrário.
Casou virgem aos 18 anos, com o engenheiro Aloisio Ribeiro, e foi mãe de
três filhos. Mas o tempo passou e Lygia foi se dedicando cada vez mais ao
trabalho, até que foi devidamente recompensada, nos anos 60, quando ganhou
reconhecimento internacional. Não como pintora, é verdade, mas por suas
experiências terapêuticas. Na década de 70, rejeitou o rótulo de artista e
exigiu ser chamada de "propositora". Deu aulas na Sorbonne, de 1972 a
1977, e voltou ao Brasil em 1978 para dar consultas particulares. Dez anos
depois, morreu de parada cardíaca. Estava com 68 anos e deixou uma legião
de seguidores que não se cansam de reinventar sua arte. MANABU MABE Para
entrar na casa dos Mabe, o visitante não precisa tirar os sapatos, como é
tradição em certas residências japonesas. Mas a cada passo sente-se a
mistura da espiritualidade zen dos orientais com as cores dos trópicos,
fornecidas em abundância pelas telas do patriarca Manabu. Entre uma e
outra sala da confortável mansão no bairro do Jabaquara, na zona sul de
São Paulo, observa-se o acervo familiar, de pelo menos 250 obras. Todos
podam as árvores e cuidam prazerosamente dos lagos repletos de carpas. E
formam uma harmoniosa família, estruturada como se fosse uma empresa. O
filho Yugo é artista plástico, Joh é galerista e Ken projeta o futuro
museu que levará o nome do pai. A viúva Yoshino também experimenta a
alegria dos pincéis. Respira-se arte numa paisagem cercada de
arranha-céus. Morto em 1997, Manabu Mabe é a grande ausência nesse recanto
mágico da pintura. "Tudo o que existe aqui tem um pouco dele", afirmou
Yugo. Mabe dizia aplicar na casa cada centavo, inspirado nas memórias dos
jardins em que brincava na infância. O pintor nasceu em Kumamoto, no
Japão, a 14 de setembro de 1924. A família veio para o Brasil quando ele
tinha dez anos. Do porto de Santos, foram todos para os cafezais do
interior paulista. O árduo trabalho na lavoura deixou as mãos de Mabe
calejadas, mas não afetou a imensa precisão nos traços. A rotina era
cansativa, a arte era um sonho. Nos domingos e, principalmente, nos dias
de chuva driblava o mau tempo e as poucas horas vagas desenhando nos sacos
de embalar café. Em 1957, Mabe decidiu vender as terras que tinha
conseguido comprar em Lins (SP) e seguiu para a capital. Para honrar a
dívida de US$ 2 mil, propôs ceder telas suas ao banco. O credor não
aceitou e só perdoou o débito quando Mabe ofereceu galinhas da antiga
fazenda. O artista plástico trabalhou como ajudante de tintureiro e pintou
gravatas de seda que a esposa confeccionava. Vez ou outra, os amigos
compravam seus quadros. Mas, apenas dois anos depois, saiu do anonimato e
suas obras começaram a percorrer o mundo. Em 1959, ganhou prêmios das
Bienais de São Paulo e Paris. Subitamente, mergulhou na fama. Manabu Mabe
expôs em 19 países, uma marca espetacular que prova o reconhecimento de
crítica e público. Karaokês Embora tivesse se naturalizado brasileiro em
1960, era uma notoriedade no Japão, para onde viajava anualmente. Também
adorava cantar, e os karaokês nas noites de domingo reuniam toda a
família. Eram verdadeiros festivais de canções japonesas, mas sempre havia
espaço para a latina Besame mucho, no forte sotaque nipônico do artista
plástico. Na intimidade, era um sujeito expansivo, de ótimo astral. Não
perdeu o bom humor nem com a queda de um cargueiro da Varig, em 1979, que
transportava 53 telas suas em exposição pelo mundo - entre elas as mais
premiadas. O avião fazia a rota Tóquio-Los Angeles e as causas do acidente
até hoje não foram esclarecidas. "Ainda bem que o pintor está vivo",
brincava. Passou 14 anos refazendo grande parte dos quadros, que
pertenciam a acervos particulares. Apesar de boêmio, levantava no máximo
às oito da manhã para pintar. Diabético, faleceu a 22 de setembro de 1997.
É um exemplo concreto da saga de milhares de japoneses que migraram para
uma terra distante e construíram vida nova. Mabe confessava ser um
apaixonado pelo Brasil. E ensinava: "É preciso crer sempre no sonho e
lutar para que ele se torne real." TARSILA DO AMARAL "Pegue-se três litros do visgo da amizade/ajunte-se três quilos do
açúcar cristalizado da admiração/perfume-se com cinco tragos da pinga do
entusiasmo/mexa-se até ficar melado bem pegajento/e se engula tudo duma
vez..." Essa era a receita, sob a forma de um poema de Mário de Andrade,
dos badalados jantares na rua Barão de Piracicaba, no centro da São Paulo
dos anos 20. No casarão morava uma das mais aristocráticas famílias
paulistas, dona de plantações de café no interior. E com uma charmosa e
ilustre integrante: a pintora Tarsila do Amaral, na época casada com o
poeta e escritor Oswald de Andrade. Serviam os banquetes entre uma e outra
viagem a Paris, onde os dois artistas fixavam residência quase uma vez por
ano. Num período mais longo de estadia no Brasil, no início de 1928,
Tarsila evocou as criaturas míticas da infância que saíam das histórias
contadas pelas negras descendentes de escravas nas fazendas dos avós.
Queria dar um presente de aniversário ao marido, algo que o
impressionasse. Começou a pintar uma tela, que entregou a Oswald no dia de
seu aniversário, a 11 de janeiro. Ao receber o quadro, ele ficou extasiado
com sua beleza. Chamou o amigo Raul Bopp e sugeriu que dessem à obra o
nome de um selvagem, pois a figura parecia um gigante. Lembraram-se do
dicionário de tupi que Tarsila guardava na cabeceira e encontraram o termo
certo: Abaporu, o homem que come carne humana. Estava fundada a
antropofagia, um dos mais importantes movimentos artísticos brasileiros,
que preconizava a devoração cultural das técnicas importadas dos países
desenvolvidos para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto
de exportação. Antropofagia Principal representante da antropofagia nas
artes plásticas e precursora do surrealismo no Brasil, Tarsila nasceu a 1º
de setembro de 1886, na cidade paulista de Capivari. Seu avô, o
"Milionário", tinha tanto dinheiro que resolveu comprar o luxuoso Hotel
D'Oeste, em São Paulo, simplesmente porque um empregado não o havia
deixado se hospedar por causa da aparência de um homem simples. A família
mandou Tarsila estudar na Europa. Ela frequentou a Academia Julian e os
ateliês de André Lhote, Albert Gleizers e Fernand Léger. Depois de idas e
vindas, desembarcou no Brasil em 1922, quatro meses após a Semana de Arte
Moderna. Então, formou-se o grupo dos cinco, capitaneando a maior
reviravolta da cultura nacional neste século, o modernismo: Tarsila,
Menotti del Picchia, Anita Malfatti, Oswald e Mário de Andrade. Em 1925,
fez uma excursão pelas cidades históricas de Minas Gerais. Registrou em
suas telas a redescoberta do interior simples e puro, das cores caipiras,
no movimento chamado de pau-brasil. Perdeu grande parte das terras na
crise de 1929 e deu início à pintura social, retratando o desamparo do
homem despersonalizado pela industrialização. A jovem Tarsila era de uma
beleza edificante, desfilava com altivez, os brincos pendentes quase
tocando os ombros. Menotti del Picchia costumava lembrar o dia em que a
conheceu: "Tinha eu na frente uma das criaturas mais belas, harmoniosas e
elegantes que me fora dado ver." A pintora csaou-se quatro vezes - duas
oficialmente. O primeiro casamento acabou por causa do ciúme do marido,
que não queria vê-la pintando. O segundo, com Oswald, durou até 1930,
quando ele a traiu. Depois veio a união com um médico que a levou para as
reuniões do Partido Comunista (a pintora viajou para a Rússia em 1931 e
passou um mês na cadeia, ao retornar ao País). Por fim, um romance de duas
décadas, com um crítico de arte 20 anos mais jovem. Teve uma filha e uma
neta. Ambas morreram antes dela. Conseguiu vencer a tristeza com as
palavras de ânimo do médium Francisco Xavier, seu amigo pessoal. Sarcasmo
Gostava de ouvir piadas, não pelo sarcasmo de quem as contasse, e sim
pelos erros de português. Morria de rir com as falhas. Corrigia uma por
uma, mania que adquiriu com as intensas leituras, principalmente de
dicionários. No fim da vida, estudava grego antigo e recitava poesias
incompreensíveis. Já não podia andar, limitada a uma cadeira de rodas após
uma cirurgia na coluna. Morreu de câncer a 17 de janeiro de 1973. Foi
enterrada de vestido branco, conforme seu desejo. O Abaporu (o presente
dado a Oswald) foi leiloado em 1995, por US$ 1,3 milhão. É até hoje a obra
mais valiosa comercializada em leilão por um pintor brasileiro. VILANOVA ARTIGAS De
repente batiam na porta da casa do velho Artigas, no bairro do Campo Belo,
em São Paulo. Quem era? Certamente um admirador que trazia uma garrafa de
vinho como "pedágio" para ouvir a fala simples, entre os dentes, que
crescia do metro e sessenta do arquiteto e professor João Batista Vilanova
Artigas. Comunista ferrenho, Artigas foi afastado das aulas em 1969,
durante o regime militar, depois de 30 anos lecionando na Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da USP, que projetara e ajudara a fundar. Mas não
abandonou a vocação de mestre e continuou reunindo em sua casa alguns dos
mais de dois mil arquitetos que ajudou a formar. Também abria a porta para
personalidades. "O Luís Carlos Prestes apareceu cinco vezes por lá e o
Carlos Marighela até levou uma mordida do Lobo", lembra o filho Júlio,
referindo-se ao pastor alemão que, às vezes, recebia os visitantes com
ferozes dentadas. Nascido em Curitiba (a 23 de junho de 1915), Artigas
veio a São Paulo aos 17 anos para estudar Arquitetura. Frequentava grupos
de artistas plásticos (onde conheceu a esposa, Virgínia, com quem teve
dois filhos) e desenhava modelos vivos, o que era considerado uma
maluquice pelos colegas. O esforço resultou em projetos modernos e ousados
que privilegiam o espaço coletivo. Ganhador de prêmio internacionais e um
dos fundadores do Instituto dos Arquitetos do Brasil, voltou à FAU em 1980
para ocupar o cargo de auxiliar de ensino, recuperando a cadeira de
professor titular quatro anos mais tarde. Morreu pouco depois, a 5 de
janeiro de 1985, para se transformar num paradigma do ensino de
Arquitetura no País. "Se as formas são absurdas, é porque as premissas são
irracionais", repetia. Oscar Niemeyer O sol de
Copacabana inunda de luz o escritório de paredes brancas de Oscar Niemeyer
na cobertura do velho edifício Ypiranga, na avenida Atlântica. As janelas
envidraçadas expõem o mar e as montanhas da paisagem de cartão-postal na
manhã esplendorosa do outono carioca. O arquiteto está no corredor que
conduz à sala dos fundos, silencioso, ausente, entregue a si mesmo,
levemente encurvado sobre a prancheta. "Não me chama de senhor. Não sou
senhor-de-engenho, como dizia Prestes." No porta-retratos sobre a mesa,
vê-se o líder comunista Luís Carlos Prestes, em local indefinido (um ato
de protesto, presume-se) e data incerta (o rosto é jovem e altivo).
"Repara o queixo dele, está sangrando, tinha acabado de levar um murro."
Agora que os olhos se habituaram à intensa luminosidade matinal, dá para
ler as palavras de ordem riscadas nas paredes do enorme salão de Niemeyer
- "Quando a vida se degrada e a esperança foge do coração dos homens, a
revolução é o caminho a seguir", por exemplo. Não é necessário ser perito
de alguma polícia secreta para adivinhar o autor do crime. O traço
irregular, como se fosse pontuado de minúsculas e infinitas curvas, o
denuncia. Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares, carioca nascido a 15
de dezembro de 1907, fala com a voz pausada e em baixo volume, como convém
a um homem de 91 anos. - "Alcaçar essa idade é uma merda, mas é bom." Sua
obra, esta sim, é grandiosa, eloquente, carece de pruridos ideológicos. Os
projetos acanhados, econômicos, ele soube evitar: "A idéia de simplicidade
arquitetural é demagogia." Curva livre e sensual Sobretudo, esquivou-se a
vida toda do enfadonho e monótono ângulo reto. "Também não me atrai a
linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva
livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas de meu país, no curso
sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida."
Mais de 400 projetos saíram de sua prancheta. Há pelo menos 180 edifícios
com a assinatura de Niemeyer no Exterior. No Brasil, ele se faz presente
em oito capitais e mais de 30 municípios do interior. A seu respeito foram
escritos três dezenas de livros em oito idiomas, incluindo japonês e
grego. Não é só o arquiteto brasileiro mais importante do século. É um dos
cinco ou seis gênios da raça paridos em 500 anos de História. Certa vez, o
antropólogo Darcy Ribeiro comentou: "A gente imagina que, daqui a 300
anos, ainda vão falar de nós, mas é ilusão. Vão lembrar só do Oscar.
Sempre haverá alguém estudando a obra dele." Com faíscas saindo dos olhos,
como era habitual, Darcy bem podia ter acrescentado: "E estarão todos
paralisados de espanto!" As montanhas nos olhos Niemeyer segue à risca o
dogma que roubou do poeta francês Charles Baudelaire: "O inesperado, a
irregularidade e a surpresa são parte essencial e característica da
beleza." Em 1936, quando o suíço Le Corbusier (teórico número 1 da
arquitetura moderna) saltou de um zepellin para ajudar a construir o
edifício do Ministério da Educação, se impressionou com o jovem Niemeyer:
"Esse moço tem as montanhas do Rio nos olhos." Ele era um aprendiz que,
alguns anos antes, convencera o arquiteto Lúcio Costa a estagiar de graça
em seu escritório. Para falar a verdade, Niemeyer queria pagar para
trabalhar. "Era simpático, mas não mostrou talento. Na época, não
apostaria um tostão nele", diria Lúcio Costa anos depois. Niemeyer
aprendeu depressa a lição básica: com o advento do concreto armado e das
estruturas de metal, a parede não precisava mais cumprir o dever milenar
de sustentar o peso do prédio e, com isso, ganhara salvo-conduto para ser,
antes de tudo, bela. "Essa idéia me libertou", diz Niemeyer. "Pensando
bem, nada disso importa" - ele muda de assunto de repente. "O importante é
melhorar o ser humano, sentir a própria fragilidade." A idéia de que os
homens são casas antigas que precisam ser reformadas é uma obsessão. E de
todas as casas, a de alicerces mais firmes na memória é a de Laranjeiras,
onde viveu até os 20 anos. A família era muito católica - a avó
Mariquinhas abria a janela e chamava os vizinhos para rezar missa em casa.
O avô Ribeiro de Almeida foi procurador-geral da República e ministro do
Supremo Tribunal Federal. "Morreu pobre e deixou a casa hipotecada. Que
orgulho! Há tantos roubando dinheiro público hoje." A juventude ele gastou
nos cabarés da Lapa. "Ficava olhando o mulherio e tocando bandolim." No
Café Lamas, no Flamengo, o garçom Orelha fazia a gentileza de telefonar de
manhã cedo para acordá-lo. Outro prazer era o Fluminense. Chegou a jogar a
preliminar de um Fla-Flu. "Era um bom atacante", ele jura. Mas a paixão
arrefeceu. "É time de grã-fino." A farra diminuiu quando casou com Anita,
com quem teve uma filha (tem cinco netos, nove bisnetos e dois trinetos).
O poder público foi sempre seu principal cliente. Trabalhou para vários
políticos de vários matizes - Leonel Brizola, Orestes Quércia e Paulo
Maluf, entre outros. Fernando Henrique Cardoso não é dos preferidos: "Não
o aprovo. Sou do tempo de berrar que o petróleo é nosso." O predileto foi
Juscelino Kubitschek, que conheceu em 1940, quando JK era prefeito de Belo
Horizonte e o chamou para construir o bairro da Pampulha. "Era um príncipe
da Renascença." Nos anos 50, para implantar Brasília, alguém do governo
prometeu a Niemeyer uma "comissão". Ele se enfureceu. "Era como se a
palavra exalasse corrupção. Depois soube que se referia à comissão usual
paga aos arquitetos." Com salário de 40 mil cruzeiros, absolutamente
ridículo para a monumental tarefa, Niemeyer exigiu que o governo
contratasse um punhado de amigos que, à primeira vista, nada tinham a ver
com a obra. Havia um goleiro do Flamengo e mais quatro companheiros "que
estavam na merda e eu queria ajudar", confessa. Mão-aberta A fama de
mão-aberta ele ganhou em 1945 ao dar a chave do escritório a Prestes, que
acabara de sair da masmorra do Estado Novo, para ele montar a sede do PCB.
Não faz muito, deu R$ 7 mil ao porteiro do prédio onde mora. O homem tinha
câncer e queria realizar o sonho da casa própria. Sustentou anos a fio
Trifino Correa, militar ligado ao PCB. "Estava em situação desesperadora.
Ao ganhar aumento de soldo, pediu para baixar a ajuda de custo. Isso é que
é honestidade!" A mais famosa história de desapego é a do apartamento que
deu não ao Partidão, mas ao próprio Prestes, no início dos anos 80. Quando
Prestes pediu o boné no PCB, saiu com ele. "Estar de bem com os amigos é o
que importa. Não dá para ficar sozinho, porque a vida é perversa, não tem
solução", especula, os olhos castigados pelo sol da janela. "Se fosse
rico, morreria de vergonha", completa, antes de proibir que se fotografe a
cadeira de espreguiçar, cheia de ondas, que ele desenhou, exceto se o Pão
de Açúcar estiver ao fundo. É como se a cadeira existisse apenas para
compor a paisagem tropical de uma beleza que cega, justamente ali, no
escritório do velho edifício Ypiranga, em Copacabana. |